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    Pedro Passos

    Somos todos Brasil

    16/01/2015 02h00

    Com o ajuste fiscal como referência do início do segundo governo da presidente Dilma Rousseff, implicando menos subsídios, além de, eventualmente, maior competição de mercado, e com a restauração dos alicerces da estabilidade econômica como o resultado almejado, não há dúvida de que a economia vai trilhar outra rota, e as empresas, em consequência, também terão de acompanhar as mudanças.

    As primeiras medidas anunciadas já estão em conformidade com esse cenário. Por algum tempo, o ajuste será percebido como um recuo de alguns passos antes que o crescimento volte a avançar. A tendência é que prevaleça um sentimento de expectativa, tipo deixar como está para ver como fica, sobretudo devido ao fato de as mudanças acontecerem sob a direção do mesmo grupo político, embora com outra equipe econômica.

    Os atalhos que se julgavam eficazes para o desenvolvimento, diante da exaustão do Orçamento e do endividamento do Tesouro a um custo exorbitante –um se alimentando do outro–, estão obstruídos, e não há alternativas viáveis a não ser remover os obstáculos para que se restaure a confiança no processo econômico do país.

    O que se avista à frente sugere um tempo de transição entre o que não funcionou e o que poderá funcionar, assim, no condicional, pois sujeito ao êxito do programa de ajuste.

    E isso sem contar com uma incerta ajuda da economia global, cuja bonança graças ao boom de commodities de 2003 a 2011 criou, à época, o sentimento de que o futuro, enfim, chegara ao Brasil. Chegou, de verdade, mas foi mal aproveitado como evento de transformações, cujo fundamento é o que o novo programa macroeconômico espera recuperar.

    O resultado será mais ou menos promissor conforme o setor privado venha a se posicionar em relação à nova agenda. O fato é que nestes últimos anos os empresários se apegaram a demandas demasiadamente setoriais e pouco a uma visão integrada de país.

    Num processo de desenvolvimento eficaz, ou todos somos vistos como Brasil ou a confiança nunca será plena. Mas o setor privado também precisa ter clareza sobre o que ambiciona para o país.

    O momento é oportuno para essa discussão, já que a reconstrução dos fundamentos da macroeconomia insere a oportunidade de repensar o papel que a indústria, o agente dinâmico em países continentais e com um grande mercado de massa como o nosso, deve ocupar no desenvolvimento.

    A estagnação da indústria brasileira é uma realidade que precisará ser enfrentada sem que haja mais soluções fáceis –tipo moeda fraca e estamos conversados. O estouro da bolha das commodities, afetando a indústria extrativa, é outra realidade que não pode ser omitida.

    Como daremos conta desse acúmulo de problemas e, principalmente, como vamos enfrentá-los? Nem uma equipe econômica preparada nem uma política econômica por mais bem desenhada que seja terão todas as respostas.

    A complexidade do processo é que as soluções eficazes dependem não da caneta dos governantes, mas do dinamismo empresarial, nacional e estrangeiro.

    Este, por sua vez, brota das oportunidades disponíveis e da forma que as empresas as utilizam. Com tecnologias, modelos de negócios inovadores e vontade empreendedora, promovem a melhora da qualidade e da eficiência da produção, ocupam mercados e internacionalizam as suas operações.

    Nenhuma política setorial é capaz de suprir tais predicados, que deveriam formar a espinha dorsal de um novo pensamento empresarial adequado ao modelo econômico focado na retomada do crescimento.

    Isso se faz necessário, tanto quanto a atenção com a infraestrutura e a educação, entre outras questões essenciais, já que o desenvolvimento requer o engajamento completo do setor privado.

    Talvez governo e empresas estejam destreinados para trabalhar em parceria, mas é da comunhão de interesses que vão surgir as saídas para a tragédia da baixa produtividade, condição incontornável para sustentar níveis maiores de renda, tanto devido à queda do aumento demográfico como do fosso tecnológico que nos afasta das maiores economias. É soberba supor que tais desafios sejam fáceis, se nem a inflação e o saneamento das contas do governo estão resolvidos.

    pedro luiz passos

    É empresário e conselheiro da Natura. Escreve às sextas, a cada duas semanas.

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