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    Reinaldo José Lopes

    Comida personalizada?

    22/11/2015 02h00

    Comer direito, ao menos do ponto de vista teórico, parece quase uma questão de bom senso. Capriche nas verduras, legumes e frutas, evite exagerar no açúcar e no pão, prefira as carnes magras –tudo isso aí sua avó já sabia. A dificuldade verdadeira é evitar as tentações da gula, e não saber o que se deve comer. A não ser, é claro, que a comida saudável de uns seja, na verdade, um perigo para o organismo de outros.

    A hipótese fede a heresia, eu sei, mas um intrigante estudo israelense traz os primeiros indícios fortes de que isso pode ser verdade. Quem imaginaria, por exemplo, que os aparentemente inocentes tomates seriam capazes de aumentar perigosamente os níveis de açúcar no sangue?

    Note bem: a vilania dos tomates só se verificou no caso de uma entre 800 pessoas que participaram da pesquisa israelense, coordenada por Eran Elinav e Eran Segal, do Instituto Weizmann, e publicada na revista "Cell". O ponto é justamente esse: a variabilidade individual.

    É preciso dizer que a equipe coordenada por Elinav e Segal se concentrou na análise de apenas uma das reações do corpo à alimentação: as variações dos níveis de glicose no sangue. Os médicos sabem há tempos que comidas capazes de produzir um aumento rápido e acentuado desse açúcar na corrente sanguínea podem causar problemas a longo prazo. Repetido muitas vezes, esse fenômeno aumenta o risco de diabetes, hipertensão, doenças do coração e obesidade.

    Em tese, os alimentos ligados aos picos de glicose no sangue são bem conhecidos: pão branco, arroz (não integral) e outras comidas ricas em carboidratos "simples", facilmente absorvidos pelo organismo.

    A equipe de Israel, porém, queria saber se isso valia mesmo para um grupo grande de pessoas. Daí a ideia de recrutar as centenas de voluntários, com idades entre 18 anos e 70 anos e saudáveis.

    Durante uma semana, esse pessoal teve a vida devassada. Receberam um medidor automático de glicose que analisava os níveis de açúcar no sangue a cada 5 minutos. Doaram amostras de fezes. Foram instruídos a registrar detalhes de suas refeições, padrões de sono e exercícios físicos num aplicativo de smartphone. E, finalmente, todo mundo tinha de tomar um café da manhã padronizado, correspondente a 50 gramas de carboidratos, que podia consistir em pão, pão com manteiga, glicose ou frutose (outro tipo de açúcar).

    Os pesquisadores usaram essa montanha de dados (equivalentes a quase 50 mil refeições) para conduzir análises estatísticas pesadas –e viram que a variação de pessoa para pessoa é muito significativa. O caso do pão é emblemático: embora haja, óbvio, uma elevação média nos níveis de glicose associada ao consumo dele, 10% das pessoas tinham uma elevação que era só um terço dessa média, enquanto o organismo de outros 10% dos participantes reagia com um pico de glicose que era o dobro da média.

    O mais interessante é que a equipe conseguiu usar tais resultados para projetar dietas personalizadas –e funcionou, no que diz respeito ao controle dos picos de glicose no sangue.

    É claro que os dados precisam ser considerados com um grão de sal. A composição étnica e os alimentos disponíveis em Israel, por exemplo, são bem diferentes do que temos no Brasil. Mas talvez problemas como obesidade e diabetes não derivem apenas da notória dificuldade para seguir uma dieta que a vovó aprovaria.

    Reinaldo José Lopes

    É jornalista de ciência com graduação, mestrado e doutorado pela USP. É autor do blog "Darwin e Deus" e do livro "Os 11 Maiores Mistérios do Universo". Escreve aos domingos, a cada 2 semanas.

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