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    Reinaldo José Lopes

    Aracnídeo com alma de cuco

    28/02/2016 01h50

    Duvido que você já tivesse ouvido falar de pseudoescorpiões (note bem o prefixo "pseudo-"; não me refiro a escorpiões propriamente ditos) antes de ler esta coluna. Aliás, não o culpo, gentil leitor. Eu também mal sabia da existência deles antes de examinar o relato de uma fascinante pesquisa sobre os bichos, conduzida por dois cientistas brasileiros. Resumo da ópera: alguns pseudoescorpiões parecem ter alma de cuco.

    Não, eles não têm fixação em dizer a hora certa – sua semelhança com as aves do relógio do vovô é bem mais sinistra. Muitas das espécies de cucos da vida real, como talvez você saiba, não criam os próprios filhotes: preferem depositar seus ovos nos ninhos de outras aves, as quais criam o filhote intruso com todo o desvelo de seus corações emplumados, enquanto o invasor, sem a menor cerimônia, mata seus irmãos postiços assim que os pais viram as costas.

    É mais ou menos isso o que acontece com os pseudoescorpiões estudados por Kleber Del-Claro, da Universidade Federal de Uberlândia (MG), e Everton Tizo-Pedroso, da Universidade Estadual de Goiás. Os bichos são assim chamados por causa de sua semelhança com os escorpiões, mas costumam ser bem menores e inofensivos. Todos pertencem ao grupo dos aracnídeos (tal como as aranhas, o que explica o título acima), e há mais de 3.000 espécies deles mundo afora.

    A dupla de pesquisadores resolveu estudar a fundo o fato de que os grupos sociais de pseudoescorpiões às vezes contêm mais de uma espécie. Era particularmente intrigante a vida social de um pseudoescorpião do cerrado chamado Paratemnoides nidificator, que mede até 7 mm de comprimento. Del-Claro e Tizo-Pedroso notaram que suas colônias em cascas de árvores, com uma média de 20 indivíduos, também costumavam abrigar alguns exemplares da espécie Parachernes melanopygus, bem menor (alcançando no máximo 2 mm) e sem parentesco próximo com o "dono da casa". O que estaria acontecendo?

    Estava na hora, obviamente, de levar a bicharada para o laboratório, e foi o que eles fizeram, recolhendo 300 colônias de P. nidificator em cinco municípios (Ribeirão Preto, Uberlândia, Uberaba, Araguari e Caldas Novas). Desses ninhos, 16% tinham exemplares de P. melanopygus, o tampinha penetra. A partir daí, os pesquisadores fizeram diversos experimentos para estudar a interação entre as espécies, a começar pela comparação entre colônias mistas e colônias de uma espécie só.

    Primeiro dado significativo: o pseudoescorpião maior tinha uma taxa de sobrevivência bem maior (85%) em ninhos "puros" do que nos ninhos mistos (53%), enquanto exatamente o contrário se dava com o aracnídeo menor (22% sobreviviam sozinhos, 80% quando acompanhados da outra espécie).

    Além disso, a espécie intrusa se comportava de um jeito altamente folgado: não capturava as presas oferecidas pelos cientistas (cupins e larvas de besouro), mas comia o alimento trazido pela espécie anfitriã - e, como se não bastasse, comia até 30% dos filhotes da dona da casa.

    Os pesquisadores avaliam que o tamanho menor do P. melanopygus, bem como o uso de algum tipo de camuflagem química, permitem que ele engane seu hospedeiro, fazendo com que ele o trate como filhote de sua própria espécie. Se alguém estava precisando de ideias mirabolantes para um filme de ficção científica e horror, seus problemas acabaram. A série "Alien" ficaria no chinelo.

    Reinaldo José Lopes

    É jornalista de ciência com graduação, mestrado e doutorado pela USP. É autor do blog "Darwin e Deus" e do livro "Os 11 Maiores Mistérios do Universo". Escreve aos domingos, a cada 2 semanas.

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