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    Reinaldo José Lopes

    Tapando o buraco

    03/07/2016 02h00

    Leitores carentes de boas notícias, regozijai-vos: parece que o célebre buraco de ozônio da Antártida finalmente está começando a ser tapado.

    É provável que pouca gente apostasse nesse esboço de final feliz há menos de um ano, quando o rombo atingiu as maiores dimensões já registradas: 28,2 milhões de quilômetros quadrados (mais de três Brasis) no último dia 2 de outubro. Um estudo que acaba de sair na revista "Science", no entanto, mostra que esse recorde negativo foi resultado de condições passageiras, e que o jogo enfim principiou a virar.

    Como o problema do rombo de ozônio não anda muito em evidência, vale a pena tentar refrescar a memória sobre ele. Os principais vilões são os CFCs (clorofluorcarbonos), compostos usados em sistemas de refrigeração e aerossóis. Sob o efeito da luz solar, na alta atmosfera, tais moléculas se quebram, e o cloro presente nelas favorece reações químicas que destroem o ozônio.

    Com menos ozônio, a radiação ultravioleta do Sol atravessa a atmosfera com facilidade, afetando as moléculas dos seres vivos e aumentando as taxas de câncer, por exemplo. A dinâmica atmosférica das regiões polares faz com que essas reações químicas sejam mais fortes por lá, o que explica a situação catastrófica na Antártida.

    Para enfrentar essa ameaça foi criado o Protocolo de Montreal, que entrou em vigor em 1989 –um compromisso das nações do planeta para diminuir e, em última instância, eliminar as emissões de CFCs e correlatos. O protocolo tem sido seguido à risca, e o ritmo da perda de ozônio foi caindo.

    Agora, medições e modelos de computador conduzidos por Susan Solomon, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), revelaram que, desde o ano 2000, o buraco tem ficado menor no mês de setembro. O recorde do ano passado provavelmente foi causado por erupções vulcânicas –elas favorecem um tipo de nuvem que, por sua vez, é o ambiente ideal para a ação do cloro sobre o ozônio.

    "A ciência ajudou mostrando o caminho, os diplomatas, os países e a indústria tiveram uma capacidade incrível de traçar uma estratégia para abandonar o uso dessas moléculas, e agora nós de fato estamos vendo que o planeta melhorou. É maravilhoso", comemorou Solomon.

    Esse é o lado "copo meio cheio" da história. Não dá para deixar de pensar no copo meio vazio, porém: a coisa só tem dado tão certo nesse caso porque aposentar as moléculas destruidoras de ozônio foi uma intervenção relativamente pontual, que mexeu apenas com certos segmentos da economia.

    Enfrentar o maior desafio ambiental dos dias de hoje –a mudança climática, óbvio– não está sendo nem de longe tão fácil porque somos, por definição, uma civilização regurgitadora de CO2 (gás carbônico ou dióxido de carbono). Dos nossos carros aos nossos bois, é difícil citar um elemento da nossa cultura que não tenha potencial para aumentar a quantidade desse gás na atmosfera.

    O que não significa que não haja lições no sucesso do Protocolo de Montreal –como o estímulo constante à inovação tecnológica para substituir os CFCs. Sozinhas, novas tecnologias não vão nos tirar da enrascada da mudança climática, mas talvez sejam capazes de dar o empurrãozinho de esperança e senso de oportunidade que tem faltado aos políticos de quase todos os países.

    Reinaldo José Lopes

    É jornalista de ciência com graduação, mestrado e doutorado pela USP. É autor do blog "Darwin e Deus" e do livro "Os 11 Maiores Mistérios do Universo". Escreve aos domingos, a cada 2 semanas.

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