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    Reinaldo José Lopes

    Estudo in vitro com neurônios 'doentes' ajuda a entender vida social

    14/08/2016 02h02

    Marcelo Justo - 23.abr.2010/Folhapress
    Haila Baldin Fernandes Inacio, portadora da sindrome de Williams, em sua casa em Valinhos
    Haila Baldin Fernandes Inacio, portadora da sindrome de Williams, em sua casa em Valinhos

    Os estudos com células-tronco ainda não levaram a uma revolução terapêutica, como muita gente espera –o que não significa que eles não gerem resultados significativos quando a ideia é entender como o organismo humano funciona e o que fazer quando algo dá errado nele. Pesquisadores brasileiros dos EUA, por exemplo, usaram a técnica para produzir o que poderíamos chamar de abraços concentrados in vitro.

    Não apenas abraços calorosos, porém: inclua também na receita tagarelice bem-humorada, disposição para fazer amizade com estranhos e ótimo ouvido para música. Tais características são parte importante do perfil dos portadores da síndrome de Williams, um problema de origem genética que afeta o desenvolvimento do cérebro e de outros órgãos (em geral, o QI das pessoas com a síndrome é 30% inferior à média, e elas costumam ter disfunções sérias no coração). A aparência de quem tem a síndrome também é singular: nariz pontudo, queixo fino, olhos grandes e boca larga.

    A equipe de Alysson Muotri, biólogo paulista que hoje trabalha na Universidade da Califórnia em San Diego, tem particular interesse pelas origens dos sintomas comportamentais do problema. Os portadores da síndrome não parecem sofrer do "pé atrás" com estranhos que caracteriza a maioria de nós (é comum que as crianças com o problema abracem pessoas que nunca viram antes e conversem animadamente com elas). Por isso, entender como seu cérebro se desenvolve pode ser uma janela importante para a compreensão da vida social humana. Daí surgiu o plano de recriar os elementos básicos do sistema nervoso dessas pessoas in vitro.

    Como? Com as chamadas células iPS (ou células-tronco pluripotentes induzidas). Em tese, elas podem ser produzidas a partir de quase qualquer tecido do organismo adulto (de uma biópsia da pele, digamos). Quando inserem nas células adultas cópias extras de um punhado de genes-chave, os pesquisadores conseguem revertê-las a um estado primitivo e muito versátil, semelhante ao de um embrião. A partir daí, as células iPS podem receber diferentes "molhos" de substâncias, para que sejam encorajadas a assumir a feição desejada –no estudo em questão, a de células do sistema nervoso.

    As células obtidas pelo método apresentam as mesmas características genéticas da pessoa que doou as amostras (no caso, os genes ausentes em quem tem síndrome de Williams). Ou seja, podem funcionar como um simulador bastante preciso de seu desenvolvimento, ajudando a entender as causas do problema e a testar maneiras de mitigá-lo.

    No estudo, que acaba de sair na revista "Nature", foi possível perceber que os neurônios de quem tem síndrome de Williams são hiperconectados: seus dendritos (projeções que os ligam a outros neurônios) são compridos e ramificados, com um número maior de sinapses (conexões entre células). Paradoxalmente, a capacidade de podar conexões, além de criá-las, parece ser importante para o cérebro humano normal.

    Muotri e companhia apostam que a ausência de um único gene, apelidado de FZD9, pode explicar as características peculiares dos neurônios de quem tem síndrome de Williams. O pesquisador diz esperar que mais estudos com esse modelo ajudem a desvendar como aprendemos a criar relações de confiança com outros seres humanos, um dos segredos do sucesso de nossa espécie.

    Reinaldo José Lopes

    É jornalista de ciência com graduação, mestrado e doutorado pela USP. É autor do blog "Darwin e Deus" e do livro "Os 11 Maiores Mistérios do Universo". Escreve aos domingos, a cada 2 semanas.

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