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    Reinaldo José Lopes

    Fóssil mostra que evolução do ornitorrinco não 'parou no tempo'

    23/10/2016 02h00

    Miguel Mendez/Flickr
    Ornitorrinco de 5 milhões de anos e o atual representam caminhos evolutivos divergentes
    Ornitorrinco de 5 milhões de anos e o atual representam caminhos evolutivos divergentes

    Se pudessem falar e tivessem sido criados entre ítalo-brasileiros, como este escriba, os ornitorrincos provavelmente soltariam uma imprecação semelhante à do título acima toda vez que um engraçadinho se pusesse a caçoar deles, chamando-os de relíquia evolutiva ou fóssil ambulante.

    É verdade que, à primeira vista, um mamífero que bota ovos e cujas fêmeas nem tetas possuem parece ter esquecido que a Era dos Dinossauros terminou há 65 milhões de anos, mas a análise de um fóssil de verdade mostra que os ornitorrincos de hoje são tão modernos quanto eu e você, apesar das esquisitices.

    O fóssil de que falo é o Obdurodon dicksoni, um ornitorrinco tamanho família que viveu há mais de 5 milhões de anos, durante o Mioceno, numa versão primitiva da Austrália que hoje abriga a versão moderna dos mamíferos de bico de pato, o Ornithorhynchus anatinus. Com a ajuda da tomografia computadorizada, uma equipe de cientistas liderada por Masakazu Asahara, da Universidade de Mie, no Japão, conseguiu mostrar como os dois bichos representam caminhos evolutivos divergentes, apesar de serem muito semelhantes na aparência.

    As pistas de que o ornitorrinco moderno é uma "invenção" (não intencional, claro) relativamente recente da seleção natural vêm de uma série de peculiaridades de sua anatomia e de seu comportamento. Como você talvez tenha imaginado, o célebre bico da criatura não tem dentes nos indivíduos adultos –mas o bicho ainda mastiga, usando para isso umas estranhas almofadas córneas que possui na boca.

    Outro detalhe curioso envolve os olhos e, mais uma vez, o bico do monotremado ("monotremados" é como os cientistas batizaram o grupo dos ornitorrincos e seus parentes, como a espinhosa équidna). Ornitorrincos são os jedi do reino animal: ao caçar no leito de rios e lagos, fecham os olhos e tapam os ouvidos. A aparente privação completa de estímulos sensoriais é compensada pelo "sexto sentido" desses bichos: a capacidade de detectar os campos elétricos emitidos pelo organismo de suas presas (em geral, invertebrados aquáticos) com detectores especiais localizados no bico. Curiosamente, porém, seus olhos possuem adaptações especiais para enxergar debaixo d'água. Para quê, Deus do céu, se a criatura fecha os olhos quando mergulha?

    O crânio do O. dicksoni parece conter a resposta. Em artigo na revista "Science Advances", os pesquisadores verificaram que o bico do ornitorrinco das antigas possui um espaço menor para a passagem dos nervos ligados ao "sexto sentido" dos bichos modernos. Ao mesmo tempo, a espécie extinta tem olhos maiores e dentes que duravam a vida toda (os quais, aliás, tomam espaço que poderia ser destinado aos nervos cruciais que mencionei).

    É provável, portanto, que os ornitorrincos mais antigos se dedicassem a caçar de olhos abertos na superfície da água.

    Só mais tarde viraram especialistas em fuçar o leito fluvial, de forma que seus olhos se tornaram inúteis conforme revolviam o lodo –embora tenham guardado as marcas das adaptações mais antigas.

    A moral da história? Se eu fosse você, extirpava do vocabulário essa mania de falar em espécies "mais evoluídas" ou "menos evoluídas" (para não falar da suprema breguice de sentenciar que "Fulano é um ser humano muito evoluído", mistura mal-ajambrada de jargão da biologia com espiritualidade barata, mas isso já é outra história).

    A evolução –compreendida pura e simplesmente como mudança de características biológicas transmitidas de uma geração para outra– não para nunca, ainda que possa andar em ritmos diferentes de linhagem para linhagem. Ambientes, competidores e parceiros mudam o tempo todo; mudam também as moléculas que constituem os seres vivos, afetadas pela miríade de radiações que permeiam o Cosmos, por "defeitos de fabricação" e pelo mais puro acaso. Nada do que está vivo é mero retrato do passado.

    Reinaldo José Lopes

    É jornalista de ciência com graduação, mestrado e doutorado pela USP. É autor do blog "Darwin e Deus" e do livro "Os 11 Maiores Mistérios do Universo". Escreve aos domingos, a cada 2 semanas.

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