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    Reinaldo José Lopes

    Antropólogos atiram para todo lado para explicar falta de pelos do homem

    06/11/2016 02h00

    Durova/Wikimedia Commons
    Australopithecus afarensis reconstruction - Afinal, por que quase não temos pelos no corpo?
    Australopithecus afarensis reconstruction - Afinal, por que quase não temos pelos no corpo?

    A situação mais constrangedora da história da filosofia grega teve como protagonista um frango depenado. O galináceo virou pivô involuntário dos debates acadêmicos da velha Atenas quando o sábio Platão, em dia pouco inspirado, resolveu definir o ser humano como "bípede sem penas".

    Foi a deixa para que Diógenes, gaiato oponente do círculo platônico, aparecesse com o pobre franguinho, berrando "Eis aqui o homem de Platão!". Teria sido melhor definir a nossa espécie como "bípede sem pelos" (ou, no mínimo, com muito pouco pelo). Mas, afinal, por que quase não temos pelos no corpo, meu bom Zeus?

    Resposta curta: ninguém tem certeza ainda. Por outro lado, hipóteses não faltam, das mais estapafúrdias às mais cautelosas (mas ainda assim repletas de lacunas). É com prazer que apresento ao dileto leitor o estado da arte desse piloso debate.

    No quesito criatividade, duvido que algum dia apareça uma hipótese mais interessante que a do "grande macaco aquático", cujo arcabouço teórico busca explicar não apenas a nossa epiderme glabra como também outras características singulares da fisiologia humana –entre elas, a proporção relativamente generosa de gordura no nosso organismo, quando comparada com a compleição esguia, quase "seca", de nossos primos de primeiro grau, os chimpanzés.

    A ideia é que, nos primórdios da linhagem humana, tivemos uma fase semiaquática. A postura bípede teria sido ideal para que nossos ancestrais andassem pela parte rasa de lagos, rios e mares, catando moluscos e pegando pequenos peixes. Nesse contexto, a melhor estratégia do ponto de vista da seleção natural teria sido perder pelos e ganhar gordura extra, o que é mais eficiente para conservar calor debaixo d'água.

    Aparentemente, os formuladores dessa ideia nunca ouviram falar de bichos semiaquáticos peludões, como ariranhas, capivaras e leões-marinhos, então chega de falar dela por enquanto.

    Um tipo bem menos imaginoso de hipóteses tenta relacionar nosso estado de perpétua calvície corporal com a regulação do calor em ambientes abertos, como a moderna savana africana, colonizados pelos ancestrais do ser humano a partir de uns 3 milhões de anos atrás. O deslocamento por longas distâncias sem a proteção da sombra das árvores teria levado à perda dos pelos e à ascensão de abundantes glândulas sudoríparas, já que suar bastante ajuda a evitar o superaquecimento do corpo. Bacana, mas babuínos (peludos) também vivem debaixo de sol na savana, e cavalos (peludos) também suam.

    Anda em voga ainda a hipótese parasitária: a perda da maior parte dos pelos teria evitado que piolhos, pulgas e outros sugadores de sangue atrapalhassem demais a vida de nossos primeiros pais (embora esse problema não tenha sido eliminado por completo). E há a ideia de seleção sexual: por algum motivo, talvez arbitrário, a falta de pelos (de início relativa, e não quase completa, decerto), passou a ser vista como atraente, e os glabros começaram a deixar mais descendentes que os cabeludos. (O púbis dos adultos humanos só teria continuado peludo porque a região produz odores importantes para a atração sexual).

    Por enquanto, o nobre leitor é livre para escolher a hipótese que mais lhe apraz (menos a do macaco aquático, vai). Minha aposta é que a comparação dos genomas dos humanos modernos com os de seus ancestrais e parentes atuais ajudará a tornar a questão menos cabeluda no futuro próximo.

    Reinaldo José Lopes

    É jornalista de ciência com graduação, mestrado e doutorado pela USP. É autor do blog "Darwin e Deus" e do livro "Os 11 Maiores Mistérios do Universo". Escreve aos domingos, a cada 2 semanas.

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