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    Reinaldo José Lopes

    Cientistas criam bactéria com DNA semiartificial, com duas 'letras' a mais

    29/01/2017 02h00

    Rocky Mountain Laboratories
    _Escherichia coli_
    Escherichia coli

    Amebas, elefantes e ipês-amarelos parecem não ter quase nada em comum, mas essa dessemelhança é, em grande medida, apenas superficial. Quando a gente mergulha no cerne das criaturas vivas da Terra, a unidade fundamental emerge: um mesmo alfabeto de quatro "letras" químicas de DNA serve de alicerce para a hereditariedade de todas elas. Esse alfabeto tem se mostrado absurdamente versátil há bilhões de anos, mas alguns cientistas decidiram que está na hora de testar uma versão 2.0 dele.

    Por incrível que pareça, funcionou, conforme relata a equipe liderada por Floyd Romesberg, do Instituto de Pesquisa Scripps (EUA), num artigo que acaba de sair na revista científica "PNAS".

    Romesberg e seus colegas já tinham conseguido criar duas novas letrinhas de DNA –criativamente apelidas de X e Y–, e até chegaram a inserir as ditas cujas em células bacterianas em trabalhos anteriores, mas a novidade bioquímica se mostrara instável, sumindo do genoma dos micróbios. Agora, os cientistas acharam um jeito de garantir que as novas letras virem parte permanente do "Livro da Vida" das bactérias, sendo transmitidas fielmente de geração em geração.

    "E daí?", haverá de perguntar o encafifado leitor.

    Bom, considere, em primeiro lugar, que toda a imensa diversidade de truques das células de bactérias (e de humanos, e de jequitibás etc.) depende da sequência das atuais letras do alfabeto do genoma. São as celebérrimas A (adenina), T (timina), C (citosina) e G (guanina), que se combinam em pares específicos na estrutura de escada em espiral do DNA –lembrando os tempos áureos do ex-casal Angelina Jolie e Brad Pitt no cinema, o A só faz "par romântico" com o T, enquanto o C só quer saber de se ligar ao G.

    Os parzinhos, porém, formam grupos de três, e cada uma dessas trincas, os chamados códons, servem de receita para a produção de um aminoácido, o componente básico das proteínas. As proteínas, por sua vez, é que fazem todo o serviço pesado do dia a dia das células.

    Ou seja: duas letras novas no alfabeto genômico poderiam, em tese, gerar instruções altamente inovadoras, levando à produção de proteínas jamais vistas. Se não equivale exatamente a "criar vida em laboratório" do zero, é algo que chega bastante perto disso.

    Para chegar mais perto desse sonho na prática, Floyd Romesberg e companhia usaram como cobaia a Escherichia coli, micróbio intestinal que é um dos mais bem estudados do mundo. O que os cientistas fizeram foi basicamente colocar várias versões das letras X e Y à disposição da bactéria e, ao mesmo tempo, inserir no micro-organismo um gene que continha a receita de um transportador, ou seja, uma molécula que permitia à célula bacteriana trazer as novas letras para dentro dela. Graças a ajustes nesse transportador, e a uma modificação no sistema de cópia do genoma das bactérias que levava as células a destruir o DNA que não contivesse as letras X e Y, a incorporação ficou bem mais sólida.

    É óbvio que esse é só o primeiro passo. Falta, por exemplo, dar novas funções para a dupla de letras químicas. Em tese, células com o novo código poderiam produzir materiais inovadores, medicamentos e muito mais. Ainda estamos longe de superar os milagres produzidos pela evolução, mas pode ser que um dia cheguemos lá.

    Reinaldo José Lopes

    É jornalista de ciência com graduação, mestrado e doutorado pela USP. É autor do blog "Darwin e Deus" e do livro "Os 11 Maiores Mistérios do Universo". Escreve aos domingos, a cada 2 semanas.

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