• Colunistas

    Friday, 20-Oct-2017 13:57:59 BRST
    Reinaldo José Lopes

    Estudo com macacos-resos amplia espécies que se reconhecem no espelho

    26/02/2017 02h00

    Divulgação
    Macaco-resos acompanha, em espelho, laser no próprio rosto
    Macaco-resos acompanha, em espelho, laser no próprio rosto

    É difícil evitar a impressão de que há algo de mágico na capacidade de se reconhecer no espelho. Ambos os primatinhas sem pelos que tenho criado em casa começaram a realizar essa façanha mais ou menos com a mesma idade, logo depois de completarem um ano de vida, sem que ninguém precisasse lhes ensinar nada: de repente, bateram o olho na superfície polida e souberam que os reflexos "eram" eles: "Cá estou eu, diante de mim mesmo".

    Não se deixe enganar pelo virtuosismo com que os filhotes de Homo sapiens realizam essa façanha, porém. O autorreconhecimento no espelho tem sido descoberto numa gama cada vez mais variada de espécies. Um novo estudo, publicado na revista científica "PNAS", sugere que ele pode até ser aprendido por bichos que, de início, não captam a mecânica da coisa.

    A bola da vez são os macacos-resos (Macaca mulatta), naturais da Ásia. Em uma analogia familiar, se os grandes símios africanos (chimpanzés e gorilas) são nossos primos de primeiro grau, os resos são parentes de terceiro ou quarto grau –espertos, mas não se espera deles a mesma sofisticação cognitiva "quase humana" de chimpanzés e afins.

    Entre as "joias da coroa" da inteligência dos grandes macacos está, claro, a capacidade de reconhecer a si mesmo no espelho –algo que mesmo o mais matreiro dos gatos nunca consegue fazer.

    O experimento clássico que permitiu verificar a presença dessa habilidade em chimpanzés envolvia sedar os bichos, fazer uma marca vermelha na bochecha deles com tinta removível e depois esperar que os "voluntários" acordassem diante de um espelho. Com a ajuda da imagem, eles logo descobriam a nova pintinha e ainda se punham a explorar partes do corpo antes inacessíveis à sua visão, como o interior da boca e do nariz.

    Nas últimas décadas, todos os grandes símios foram aprovados no "teste do espelho", assim como outros animais altamente sociáveis e inteligentes: golfinhos, orcas, elefantes-asiáticos e pegas (parentes europeias dos corvos). Todos os demais macacos, porém, pareciam ter sido barrados no baile.

    Coube a uma equipe da China mostrar que os macacos-resos também tinham potencial. Mu-ming Poo e Neng Gong, do Instituto de Neurociência da Academia Chinesa de Ciências, começaram treinando os bichos a acompanhar com o dedo um ponto de luz gerado por um laser.

    Colocados numa cadeira diante de um espelho, os macacos eram recompensados ao tocar no ponto de luz –até que os cientistas chineses passaram a projetar o laser numa área ao lado do pescoço dos bichos, que eles só conseguiriam localizar e tocar com a ajuda do reflexo. Depois de algum treino, eles aprenderam a fazer isso e obtiveram o mesmo resultado quando a luz do laser foi projetada em sua própria face.

    Quando voltaram para a jaula, agora com um espelho, os resos continuaram conseguindo identificar o laser nas suas caras, bem como pintinhas feitas com caneta –e ainda exibiram o comportamento autoexploratório tão típico dos chimpanzés que enxergam o próprio reflexo.

    Moral da história –que vale para tudo o que estamos descobrindo sobre a inteligência dos demais animais: até as características mais caras à nossa humanidade possuem paralelos em outras espécies. Onde antes víamos abismos entre nós e eles, corredores não cessam de aparecer– ainda bem, eu acrescentaria.

    Reinaldo José Lopes

    É jornalista de ciência com graduação, mestrado e doutorado pela USP. É autor do blog "Darwin e Deus" e do livro "Os 11 Maiores Mistérios do Universo". Escreve aos domingos, a cada 2 semanas.

    Edição impressa

    Fale com a Redação - leitor@grupofolha.com.br

    Problemas no aplicativo? - novasplataformas@grupofolha.com.br

    Publicidade

    Folha de S.Paulo 2017