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    Reinaldo José Lopes

    Cientistas do Brasil tentam inovar, o problema está nas empresas

    26/03/2017 02h00

    Reprodução/Getty
    Os líderes nacionais de registros de patentes são instituições acadêmicas
    Os líderes nacionais de registros de patentes são instituições acadêmicas

    Banho de realidade frequentemente dói, mas pelo menos refresca. Levei uma chuveirada dessas ao ouvir, não faz muito tempo, a apresentação recheada de franqueza do pró-reitor de pesquisa da USP, o médico José Eduardo Krieger, sobre o estado da inovação tecnológica no Brasil, em workshop na Unesp de Araraquara (SP). Frase mais emblemática: "Nosso desempenho no registro de patentes [ou seja, de novas invenções] é pífio".

    Para quem não está familiarizado com as últimas duas ou três décadas da política nacional de ciência e tecnologia, dá para resumir a situação da seguinte maneira: ao longo desse período, os cientistas do país têm sofrido um incessante bullying para se transformar em inventores de soluções com impacto econômico imediato. O jeito mais comum de medir esse tipo de produção é acompanhar os pedidos de registro de patentes no Inpi (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), que refletem o ritmo com que ideias vindas da bancada dos laboratórios são consideradas maduras o suficiente para servir de base a um produto inovador.

    Se a gente quisesse olhar o copo como se ele estivesse meio cheio (o que não é o caso, em absoluto, mas faça aí um exercício de misericórdia), seria possível encher a boca pra dizer "Missão cumprida!". Hoje, entre as dez líderes nacionais de depósitos de patentes, como se diz, estão sete instituições acadêmicas –em geral, nossas grandes universidades públicas, como a própria USP.

    O duro é o reverso da moeda, porém. Krieger classifica a situação que acabei de descrever como "jabuticaba" –ou seja, mais uma daquelas coisas que só existem no Brasil– porque nenhum país desenvolvido segue esse modelo. Ele mostra a lista das entidades que mais depositam patentes na Coreia do Sul: só dá empresa privada (LG, Samsung, os suspeitos de sempre). Nos EUA? Mesma coisa. As universidades americanas –incluindo aí Harvard, Columbia, MIT, o escambau– só produzem 3,7% das patentes do país.

    Em resumo, a culpa de sermos pouco inovadores é dos cientistas? Tudo indica que não –é das empresas mesmo, lamento informar.

    A culpa é só delas? De maneira alguma. Krieger cita, acertadamente, a extrema burocracia e a economia fechada do país como entraves capazes de debelar quase todo surto de boa vontade inovadora. Mesmo levando isso em conta, porém, até as maiores empresas tupiniquins têm uma tradição perturbadora de pensar pequeno e de comprar pacotes tecnológicos prontos. Raras são as que têm um departamento decente de pesquisa e desenvolvimento, apontou outro palestrante do workshop, Jorge Almeida Guimarães, diretor-presidente da Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial).

    Nossos megaconglomerados de "proteína animal" (carne, para quem fala português) temem por sua reputação empresarial? Que tal checarem os dados que acabei de apresentar e resolverem trabalhar um pouquinho com inovação, em vez de estimular derrubada de floresta para jogar um boi por hectare nos escombros? No melhor dos mundos, o primeiro bife decente produzido inteiramente em laboratório bem que poderia ser brasileiro.

    PS –O título original do texto foi "roubartilhado" (como diz o vulgo) de uma seção do divertido blog do colega Renato Pincelli, o "Hypercubic", que até já virou livro, inclusive.

    Reinaldo José Lopes

    É jornalista de ciência com graduação, mestrado e doutorado pela USP. É autor do blog "Darwin e Deus" e do livro "Os 11 Maiores Mistérios do Universo". Escreve aos domingos, a cada 2 semanas.

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