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    Reinaldo José Lopes

    Sob terra arrasada, ciência do Brasil precisa de caminhos para se reinventar

    09/04/2017 02h00

    Alan Marques/Folhapress
    Gilberto Kassab, ministro da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação
    Gilberto Kassab, ministro da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação

    De onde menos se espera, dali mesmo é que não sai nada. Em retrospecto, era ingenuidade digna de quem ainda acredita em coelhinho da Páscoa apostar que o apanhado de fisiologistas carcomidos no comando do atual governo federal daria alguma bola para a ciência. E eis que o orçamento destinado à pesquisa nacional neste ano foi cortado quase pela metade, recuando aos níveis de 2005. Alguém em Brasília parece ter inventado a viagem no tempo –com passagem só de ida rumo ao passado, no caso.

    É tentador jogar o grosso da culpa por esse abismo no governo Temer, a começar pela decisão de fundir dois ministérios e criar o estranho organismo transgênico MCTIC (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações). De fato, é difícil imaginar que um só ministro seria capaz de dar a mesma atenção a concessões de rádio e TV (com todo o peso da politicagem inerente a esse tipo de benesse) e a físicos que querem construir um novo acelerador de partículas.

    Ocorre que essa fusão ministerial –e a inevitável divisão de verbas derivada dela– só se deram como paliativo para a recessão que foi gestada pelas decisões econômicas desastradas do governo Dilma. No caso específico do orçamento para pesquisa, dinheiro precioso, que certamente está fazendo falta agora, também foi torrado pelo populismo perdulário do programa Ciência Sem Fronteiras –ou, para os maldosos, Turismo Sem Fronteiras, notório por gastar bilhões para enviar alunos de graduação rumo ao exterior sem nenhum controle de como eles empregavam seu tempo.

    Diante desse quadro, é verdade que cortes severos eram inevitáveis, como em tantas outras áreas do orçamento federal, mas é difícil escapar à impressão de que os investimentos em ciência são sempre o mais feio dos patinhos, os que menos remorso provocam em quem está empunhando a tesoura orçamentária.

    Se a ciência brasileira quer reagir, não adianta só repetir o mantra de que o orçamento para pesquisa não é gasto, mas investimento (embora isso seja verdade, claro). Também não basta lutar para recompor os investimentos perdidos, ainda que isso seja um objetivo crucial a curto prazo. Talvez seja preciso, acima de tudo, repensar como as coisas funcionam, em especial no que diz respeito à relação entre os cientistas e a sociedade.

    Um primeiro passo importante é a adesão de pesquisadores do país ao March for Science ("Marcha pela Ciência"), que acontece no dia 22 de abril (em São Paulo, será no Largo da Batata, às 14h). O movimento nasceu como reação da comunidade científica aos desmandos do governo Trump, que parece disposto a ignorar o que a ciência tem a dizer sobre questões ambientais ou éticas, mas todos sabemos que atitudes trumpianas também são comuns em solo tupiniquim (alô, crise hídrica!).

    Ir para a rua e falar com a sociedade seria bom à beça para a ciência do país, óbvio, mas não basta. A burocracia abissal que soterra a criatividade brasileira também se manifesta na falta de flexibilidade debaixo da qual nossos pesquisadores têm de trabalhar. O modelo monolítico das universidades públicas, segundo o qual todo mundo, em todos os lugares, tem de fazer ensino, pesquisa e extensão (e, ultimamente, inovação), com dedicação exclusiva e cargo vitalício, cobra caro em termos de agilidade, produtividade e capacidade de priorizar investimentos estratégicos. Assumir os riscos de criar um modelo novo não é brincadeira –mas talvez os tempos estejam pedindo exatamente isso.

    Reinaldo José Lopes

    É jornalista de ciência com graduação, mestrado e doutorado pela USP. É autor do blog "Darwin e Deus" e do livro "Os 11 Maiores Mistérios do Universo". Escreve aos domingos, a cada 2 semanas.

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