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    Reinaldo José Lopes

    Como virar papai

    27/08/2017 02h15

    Lucas Lacaz Ruiz - 17.fev.2017/Folhapress
    Sagui-de-tufo-branco (Callithrix jacchus), originário do Nordeste do Brasil
    Sagui-de-tufo-branco (Callithrix jacchus), originário do Nordeste do Brasil

    Na imensa maioria dos mamíferos, ser macho é moleza –pelo menos depois de vencer a disputa por uma parceira com outros machos, claro.

    Via de regra, o trabalho que os membros do sexo masculino têm no Ciclo da Vida (como naquela canção de "O Rei Leão") é um tiquinho maior que o de um doador de esperma: cópula, fêmea inseminada e adeus, aquele abraço, toca procurar outra –enquanto o trabalho duro da criação dos filhotes recai sobre os ombros da parceira.

    O Homo sapiens até que é uma exceção (embora decerto você consiga elencar diversos homens folgados). Merecem menção mais honrosa alguns parentes distantes dos humanos, macaquinhos do Novo Mundo que desenvolveram coisas como uniões monogâmicas e compartilhamento do cuidado dos filhotes. Mas que processo evolutivo levou esses raros machos a tirar o traseiro da cadeira (ou do galho) e virarem pais de verdade?

    No caso humano, as pistas a ainda são escassas, mas experimentos fortaleceram a ideia de que ajustes na composição do hormônio oxitocina, a "molécula do apego", foram importantes para que saguis e outros primatas das Américas desenvolvessem um instinto paternal.

    Parte da história está num artigo publicado há pouco na revista "Pnas", capitaneado por um triunvirato dos pampas (Maria Cátira Bortolini, Francisco Salzano e Aldo Lucion, todos pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e por Cláudio Costa-Neto, da USP de Ribeirão Preto. A equipe não só analisou como as versões específicas da oxitocina de saguis e outros macaquinhos funcionam de modo distinto como também as testou numa espécie totalmente diferente –ratos de laboratório–, com resultados curiosos.

    Sabe-se que as funções da oxitocina "1.0" tendem a modular processos como o parto, a amamentação e a interação entre as fêmeas e crias. Em certos primatas do Novo Mundo, a versão original da oxitocina sofreu, inicialmente, a troca de apenas um aminoácido –unidade básica que compõe as proteínas– em sua composição, há uns 20 milhões de anos.

    Mais tarde, parte dessa linhagem de macacos, como os Saguinus (saguis, como sugere o nome), tiveram mais uma troca de aminoácido em sua versão da oxitocina.

    A equipe gaúcho-paulista descobriu u coisas interessantes. Os genes que contêm a receita para a produção dessas formas modificadas do hormônio parecem ter sido favorecidos pela seleção natural, ou seja, estavam sendo úteis no sucesso reprodutivo dos bichos.

    Em segundo lugar, as moléculas versão 2.0 e 3.0 interagem de forma distinta com certos receptores, ou seja, fechaduras químicas das células, provavelmente promovendo uma ação mais duradoura.

    Quando as versões "de sagui" da oxitocina foram borrifadas nas fuças dos ratos de laboratório tanto as fêmeas intensificaram o cuidado com seus filhotes quanto, maravilha das maravilhas, os machos passaram a responder aos chamados dos bebês, coisa que não se dava antes.

    A hipótese mais aceita é que o hormônio modificado dos macaquinhos está ligado ao fato de que as mães costumam dar à luz filhotes gêmeos e proporcionalmente grandes, o que demanda a ajuda do pai para que a cria vingue. Talvez não por acaso, outra espécie de primata com bebês muito exigentes na qual o cuidado paterno também surgiu é, claro, a nossa.

    Reinaldo José Lopes

    É jornalista de ciência com graduação, mestrado e doutorado pela USP. É autor do blog "Darwin e Deus" e do livro "Os 11 Maiores Mistérios do Universo". Escreve aos domingos, a cada 2 semanas.

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