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    Ronaldo Lemos

    Livro mostra vida em Nova York debaixo d'água em 2140

    21/08/2017 02h00

    Marcelo Prates/Futura Press/Folhapress
    Pedestres enfrentam forte nevasca em Nova York, nos EUA; livro futurista trata de mudanças climáticas na cidade
    Pedestres enfrentam forte nevasca em Nova York, nos EUA; livro futurista trata de mudanças climáticas na cidade

    Na minha opinião, o melhor livro de 2017 já foi publicado. Trata-se do calhamaço de mais de 600 páginas escrito por Kim Stanley Robinson, norte-americano que é um dos mais interessantes escritores contemporâneos. A trama do livro, chamado "2140", desenrola-se exatos 123 anos no futuro na cidade de Nova York.

    Só que com um pequeno detalhe. Por causa do aquecimento global, o nível do mar subiu cerca de 18 metros. Com isso, a parte sul de Manhattan (que possui elevação menor que a parte norte da cidade) ficou debaixo d'água. Robinson mostra o que aconteceu com a vida no Chelsea, no Soho ou em Wall Street depois da enchente definitiva.

    A cidade transformou-se em uma espécie de nova Veneza. Alguns prédios ruíram. Outros estão firmes e fortes e são oásis habitados. Entre eles surge uma intrincada rede de passarelas ligando edifícios, o que permite um fluxo constante de pedestres. O trânsito também segue. Embarcações dividem espaço com barcos individuais e até mesmo pessoas nadando no que antes eram ruas e agora são canais.

    A genialidade de Robinson é
    mostrar que, mesmo em uma situação extrema como essa, não só a
    vida urbana resiste (inclusive a vida noturna) como também os vícios antigos.

    A história se desenrola no momento em que um investidor cria um novo índice financeiro, baseado na medição das marés e na altura das águas planetárias. O índice permite então dar previsibilidade ao mercado imobiliário e atrair investimentos.

    Com isso, há um novo surto de especulação imobiliária. Comunidades que resistiram por anos à inundação, literalmente lutando por sua sobrevivência, são progressivamente forçadas a desocupar suas casas, convertidas em moradias de luxo atraentes para endinheirados. Em outras palavras, a gentrificação é um dentre os sobreviventes da catástrofe climática.

    Robinson mistura como ninguém ciência e ficção. Seus livros são cuidadosamente pesquisados.

    Mesmo sua obra anterior, o brilhante "Aurora" (que se passa em uma nave interplanetária), soa plausível. Por isso seu estilo vem sendo chamado de "cli-fi" (ficção científica climática), capaz de projetar o que poderá ser a vida em algumas poucas décadas.

    Ele não está sozinho. Há outros escritores do gênero que merecem atenção, como Claire Vaye Watkins ou Paolo Bacigalupi. Mas Robinson é quem articula melhor a interação entre os vários sistemas sociais (como economia) com o cenário distópico. Sua inundação é também uma metáfora para o excesso de "liquidez" financeira. Que serve tanto de causa como consequência da catástrofe, perpetuando-se mesmo em mundo farto de cidades costeiras inundadas.

    Para os mais céticos, vale lembrar que a organização de ciência climática Climate Central prevê que em 2050 Nova York passará a ter 28 dias por ano com temperatura com mais de 40⁰C (cinco vezes mais do que no início dos anos 2000). Assunto para Robinson não vai faltar.

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    Reader

    JÁ ERA Achar que
    sci-fi é subgênero

    JÁ É Consagração
    autores de sci-fi como "sérios"

    JÁ VEM Cada vez mais
    livros, filmes e séries de "cli-fi"

    ronaldo lemos

    É advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITSrio.org). Mestre em direito por Harvard. Pesquisador e representante do MIT Media Lab no Brasil. Escreve às segundas.

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