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    Ruy Castro

    A velha e a nova taça

    26/05/2014 02h00

    RIO DE JANEIRO - Em 1958, depois de ganhar a Copa do Mundo na Suécia, o Brasil desceu no Galeão trazendo a taça da Fifa. A delegação subiu a um caminhão dos bombeiros e seguiu em triunfo pelas ruas do Rio, até o Catete, onde JK a aguardava, e a consagração em Copacabana. Toda a cidade saiu de casa para ver a taça, erguida por Garrincha, Didi, Bellini, Pelé, Zagallo. Houve uma escala na sede de "O Cruzeiro", perto da praça Mauá, onde ela foi acariciada e beijada por Assis Chateaubriand, pela miss Brasil Adalgisa Colombo e por dezenas de ninguéns.

    A taça era uma taça, mesmo: uma mulher alada, sustentando um recipiente para se beber o champanhe da vitória –daí o apelido de "caneco". Só que de ouro. O país campeão era o responsável por ela até a Copa seguinte e, enquanto isso, podia usá-la como quisesse.

    Pois aconteceu que, no decorrer daquele ano, ela não parou no cofre da então Confederação Brasileira de Desportos (CBD). Foi passeada pelo Brasil a pedido de prefeitos, vereadores, padres, militares e mandachuvas dos menores burgos. Com ela iam um funcionário da CBD e um campeão do mundo, jogador, treinador ou cartola. Nesses ágapes, bebeu-se de tudo em sua copa, do espumante Peterlongo à caninha Praianinha –tudo, menos Moët et Chandon.

    Só por milagre a taça não foi deixada para trás em alguma viagem. Na maior empolgação, ela desfilou por banquetes, Câmaras Municipais, associações comerciais, salões do Rotary Club e, em pelo menos um caso, o principal bordel da cidade. E sabe-se lá quantos não a beijaram e lamberam –a ponto de provocar sapinho na boca de Feola.

    A nova taça da Fifa, que está viajando pelo Brasil debaixo de pesada segurança, não é, tecnicamente, uma taça. É um troféu –valioso, mas sem muito charme e nem tão diferente dos que se dá ao vencedor de uma partida entre casados e solteiros.

    ruy castro

    É escritor e jornalista. Considerado um dos maiores biógrafos brasileiros, escreveu sobre Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda. Escreve às segundas,
    quartas, sextas e sábados.

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