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    Ruy Castro

    Fome de história

    11/11/2017 02h00

    Cristiano Grimaldi
    Coleção de discos de 78 rpm de Cristiano Grimaldi
    Coleção de discos de 78 rpm de Cristiano Grimaldi

    RIO DE JANEIRO - Tenho levado a vida ao lado de pessoas que gostam de música. Mas, entre elas, há uma subcategoria com que me identifico especialmente: as que gostam de discos de 78 rpm. Os 78s eram aqueles objetos redondos, pretos, de cera, quebráveis, que reinaram de 1900 até meados do século. Quase todos os cultores de 78s que conheci já se mudaram para o São João Batista.

    Sim, é uma mídia primitiva. Mas, e se você tiver fome de história, como o analista de sistemas Cristiano Grimaldi? Depois de três anos de paciência e conversa, ele fechou há pouco a compra de 4.000 discos, quase todos 78s, de um colecionador de Niterói. Ato contínuo, Cristiano fretou um caminhão-baú e este veio pela ponte a 20 km por hora, trazendo para Laranjeiras uma carga equivalente a 80 carrinhos de supermercado lotados e pesando duas toneladas.

    Entre as maravilhas da coleção estão dezenas de discos gravados mecanicamente —anteriores a 1928, quando começou no Brasil a fase elétrica—, incluindo os da série Zon-O-Phone, lançados pela Casa Edison entre 1902 e 1904. Podem ter sido os primeiros discos prensados no Brasil —até então, eram gravados aqui e prensados na Alemanha. Outra joia é a "Ave Maria do Guarany", pela Banda do Corpo de Bombeiros, de 1910, de que só se conhecem outros quatro exemplares no país.

    Sem falar em dois discos da série Odeonette, de 6 polegadas (15 cm de diâmetro), de 1927, ambos com Francisco Alves –muito raros, porque só saíram 19 títulos nesse formato. E o incrível "Samba em Casa da Baiana", de 1910, o primeiro disco a ter a palavra "samba" no selo. Ué, o primeiro não foi o "Pelo Telefone", em 1917? —perguntará você. Não. Aliás, vieram cinco exemplares de "Pelo Telefone" no lote.

    O carioca Cristiano terá muito tempo para formar um acervo insuperável. Tem só 33 anos.

    ruy castro

    É escritor e jornalista. Considerado um dos maiores biógrafos brasileiros, escreveu sobre Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda. Escreve às segundas,
    quartas, sextas e sábados.

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