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    Suzana Singer

    O azul que ofusca

    30/05/2010 03h00

    Muita gente que passou dos 40 anos pode agora deixar os óculos de lado na hora de ler a Folha. No sábado, consegue escolher um filme no roteiro da Ilustrada sem sujar o nariz de tinta. Os ganhos vieram do aumento, de 12%, no tamanho das letras -o pulo do gato do novo projeto gráfico. De um dia para o outro, o jornal ficou mais legível.

    O advogado Roberto Borenstein, 53, assinou a Folha na segunda-feira, depois de perceber que os textos estavam mais fáceis de ler. "Os jornais estão diminuindo cada vez mais a letra para economizar papel. É uma idiotice porque, se é ruim de ler, a gente perde o interesse", diz.

    Se as letras maiores são quase unanimidade, outras mudanças causaram incômodo em muitos leitores. De 147 mensagens enviadas à ombudsman sobre o novo projeto gráfico, só 18 foram de elogio. As críticas, no entanto, quase não apareceram no jornal.

    O azul forte, que domina as páginas, foi definido como "enjoativo", "berrante", "horroroso". "É cor de Fusca velho", afirma o corretor de seguros Marcelo Borsari, 35.

    Eliane Stephan, designer responsável pelo projeto, diz que o azul "ilumina" as páginas e faz uma ligação com a internet. "Azul luminoso é das cores mais usadas em sites, blogs, no Twitter, por exemplo. É um jeito de colocar a Folha em conversa com a mídia digital", diz.

    A cor "cheguei", associada a títulos mais fortes -com mais preto- , deu a alguns leitores a impressão de que a Folha amanheceu no domingo passado mais "popular", "provinciana" ou "antiquada".
    "Ficou colorido demais. As novas fontes são grandes, grossas e arredondadas. Parece jornal antigo ou popular, aqueles, com perdão da palavra, bregas mesmo", afirma a estudante Lívia Baena, 19.

    Eliane Stephan discorda. "Vemos o cyan (azul puro) nas mais sofisticadas publicações impressas. É uma cor contemporânea." Ela não se importa se acharem o jornal "retrô", "com visual dos anos 70". "Não vejo assim, mas até gosto desta percepção. Achei legal a associação com a cor de Fusquinha, porque é meio pop", diz.

    Para ela, a maior quantidade de preto nos títulos deixa a Folha mais "incisiva, corajosa". "Quando se aumenta o corpo do texto, torna-se necessário dar mais peso aos outros elementos gráficos, como títulos", explica. Fica tudo mais forte.

    A reação do economista Michael Rachid, 35, e de outros leitores foi ruim. "Parece que a Folha grita, esperneia por minha atenção. Ficou abrutalhada", escreveu ele, do Rio de Janeiro.
    O que fica claro nas mais diferentes reações dos leitores é que design gráfico não é ciência exata. Tem muito a ver com gosto.

    Eliane compara com moda, em que não existe mais "a última moda", mas inúmeras influências e tendências. "Cada um se identifica com o que melhor se encaixa às suas ideias, ao seu modo de vida."

    Pegando esse paralelo, dá para dizer que a Folha adotou, com o aumento das letras, por exemplo, uma calça bem mais confortável. Na hora de escolher o modelo, arriscou e, reestilizou uma boca de sino, que muitos acham "vintage", e outros, "cafonérrima".

    suzana singer

    Escreveu até abril de 2014

    Foi a ombudsman da Folha por quatro anos, de abril de 2010 a abril de 2014. No jornal desde 1987, foi Secretária de Redação na área de edição, diretora de Revistas e editora de "Cotidiano".

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