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    Vladimir Safatle

    Obscurantismo, sim

    09/06/2015 02h00

    Na semana passada, o sr. Francisco Borba Ribeiro publicou (Folha, 2/6) uma defesa da decisão tomada pela PUC-SP, de rejeitar a criação de uma Cátedra Michel Foucault. Não, disse o sr. Ribeiro, não se trata de nenhuma reação obscurantista contra um filósofo que não "tem afinidade com o pensamento católico". Trata-se apenas de uma reafirmação aparentemente legítima dos princípios de uma instituição que, "num mundo repleto de identidades líquidas, pensamentos débeis e opiniões passageiras", acredita ter encontrado a verdade há séculos.

    Os professores poderão continuar a dar seus cursos sobre Foucault, diz o representante da PUC, mas não esperem que a referida instituição permita que eles desenvolvam cátedras responsáveis por federar pesquisas envolvendo outras instituições, conservar materiais que possam alimentar o interesse dos alunos e receber professores convidados. Segundo ele, uma cátedra é um "ente honorífico", e não há questão de honorar alguém como Foucault. Mas a colocação é simplesmente falsa. Qualquer universitário no mundo inteiro sabe que uma cátedra é um instrumento academicamente importante de fortalecimento de pesquisa, visibilidade e intercâmbio.

    Tudo isto é uma afronta inaceitável ao ensino de filosofia no Brasil. Não cabe à igreja e às suas pretensas verdades seculares limitar a possibilidade do desenvolvimento de saberes na área de filosofia. No entanto, é isto o que está a ocorrer. Faz parte da espinha dorsal de um estado laico defender suas universidades como espaços nos quais diferentes concepções de verdade podem se confrontar e serem igualmente respeitadas. Uma universidade não conhece "verdades encontradas há séculos", mas está disposta a permitir o questionamento de toda e qualquer verdade que queira se colocar enquanto tal.

    Se a PUC quer agir como um seminário católico, então ela deve abrir mão de seu credenciamento como universidade e se contentar em ser um seminário católico. Uma universidade que não aceitaria, por exemplo, uma Cátedra Voltaire ou uma Cátedra Spinoza por eles não terem afinidades como o pensamento do dono não pode ser chamada de universidade. Nossos departamentos de filosofia ensinam São Tomás de Aquino e o ateu Diderot, Marx e o liberal John Locke, Santo Agostinho, Nietzsche, o protestante Kierkegaard e qualquer um deles poderia receber uma cátedra em qualquer universidade pública brasileira. Não há razão alguma para aceitarmos ser diferente na PUC.

    As áreas de filosofia e teologia são ligadas nas agências federais de fomento. Por esta razão, é de se esperar que os responsáveis pela área de teologia se manifestem contra tal ataque ao ensino de filosofia. Do contrário, não sei por que nos colocaram juntos.

    vladimir safatle

    É professor livre-docente do Departamento de filosofia da USP (Universidade de São Paulo). Escreve às sextas.

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