• Cotidiano

    Monday, 06-May-2024 01:44:31 -03

    Militarização das polícias é um fenômeno mundial, diz pesquisador

    EDUARDO GERAQUE
    DE SÃO PAULO

    06/06/2015 02h00

    A morte do brasileiro Jean Charles de Menezes nas ruas de Londres em 2005. A ação policial nos protestos no Brasil antes da Copa do Mundo. Policiamento agressivo e militarizado contra manifestantes em cidades como Londres, Toronto, Paris e Nova York.

    A tese defendida pelo britânico Stephen Graham, professor de Cidades e Sociedades na Escola de Arquitetura da Universidade de Newcastle, é que todos os eventos acima estão relacionados.

    Segundo ele, a maior urbanização do mundo está gerando cidades mais desiguais e polícias militarizadas.

    A morte do brasileiro Jean Charles, por exemplo, ocorreu, diz ele, por causa do uso da tecnologia "shoot to kill" (atirar para matar), desenvolvida para confrontar os riscos de homens-bomba em locais como Tel Aviv e Halifa.

    O britânico é um dos convidados do seminário internacional Cidades Rebeldes, organizado pela Boitempo Editorial em parceria com Sesc.

    Os debates estão com inscrições esgotadas. Serão discutidos problemas urbanos (como violência e moradia) entre os dias 9 e 12 de junho, no Sesc Pinheiros.

    No evento serão lançadas seis obras sobre discussões urbanas. Entre elas, "Bala Perdida", de vários autores.

    Divulgação
    O geografo britanico Stephen Graham, professor de Cidades e Sociedades na Escola de Arquitetura da Universidade de Newcastle. Ele vem para o Brasil em junho para o seminario internacional Cidades Rebeldes, promovido pelo Sesc e pela Boitempo Editorial, que discute o papel das cidades como palco de disputas politicas, ideologicas e sociais.(Divulgacao) ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
    O pesquisador britânico Stephen Graham

    Leia a seguir trechos da entrevista concedida por Graham.

    *

    Folha - Por que as polícias estão mais militarizadas?
    Graham - O novo militarismo urbano está relacionado com a maior urbanização mundial. As forças de segurança estão mudando a forma como elas vêm os inimigos. A estratégia para trabalhar com movimentos sociais e políticos, que às vezes são radicais, está sendo repensada.

    O desafio agora é ter uma estratégia para controlar as cidades. No início dos anos 2000, as forças de segurança, como as americanas e britânicas, atuaram muito contra vários grupos sociais em cidades como Cabul e Bagdá. Ao mesmo tempo, vimos uma incrível militarização em polícias das cidades de Londres e Nova York. Existe uma paramilitarização ao redor das grandes reuniões de líderes políticos [como as do G-8] e dos grandes eventos políticos, caso da Olimpíada.

    A militarização é um fenômeno mundial?
    No Brasil sei que isso é uma grande questão em debate neste momento, por causa da realização da Copa do Mundo [de 2014] e da Olimpíada [de 2016] e de eventos como a pacificação das favelas. Mas é um fenômeno global porque o mundo vem se urbanizando de forma muito rápida.

    O desafio é dar segurança às elites face aos conflitos não contra outros países, mas contra grupos da sociedade local.

    Na prática, qual é a saída para controlar esses conflitos?
    Sou um grande crítico da militarização da polícia, mas entendo que há vários níveis de violência em toda a sociedade, relacionados com o funcionamento dos sistemas políticos e econômicos. No caso do Brasil e da América Latina, existe muita violência por parte do tráfico de drogas.

    Não há uma solução simples para isso, mas o grande problema é quando essas ações começam a minar os princípios legítimos da democracia. É importante dizer que nos últimos 50 anos ocorreram mudanças positivas na América Latina.

    Temos que aprender com isso. A melhor solução é a social e não a militar.

    Pelo seu raciocínio, a saída passa por uma mudança cultural ligada à violência. Como fazer essa transição?
    A questão é complexa, porque você precisa melhorar o bem-estar de todos, tornar as sociedades mais igualitárias. Processo que nem sempre é fácil porque as elites muitas vezes não querem as mudanças que precisam ser feitas pelo sistema político.

    Fale com a Redação - leitor@grupofolha.com.br

    Problemas no aplicativo? - novasplataformas@grupofolha.com.br

    Publicidade

    Folha de S.Paulo 2024