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    Transição Paulistana

    Câmara Municipal de São Paulo terá nove eleitos com doação de Doria

    ARTUR RODRIGUES
    DE SÃO PAULO

    20/10/2016 02h00

    Assim que assumir a Prefeitura de São Paulo, João Doria (PSDB) terá uma espécie de bancada própria na Câmara Municipal da cidade. Dos 55 vereadores, nove deles foram eleitos com a ajuda de doação do próprio bolso do tucano.

    Doria desembolsou R$ 2,9 milhões como pessoa física e, em balanço parcial da Justiça Eleitoral, aparece como o maior doador individual na disputa paulistana e entre os dez maiores do país. Um terço desse valor foi
    empregado no financiamento dessa bancada.

    Este tipo de financiamento, permitido pela legislação, mas apontado como uma distorção que beneficia os mais ricos, ajudou a garantir a maior bancada para os tucanos a partir de 2017. Além dos nove eleitos para o Legislativo, cinco candidatos que receberam o financiamento de Doria serão suplentes.

    O levantamento da Folha em dados da Justiça Eleitoral considera quantias nas quais Doria aparece como doador originário, mesmo que o repasse tenha sido feito por meio de sua campanha. Só doações acima de R$ 5.000 foram contabilizadas.

    A legislação impede doação de pessoas jurídicas, mas não prevê limite para autodoação. Pelo sistema eleitoral, sempre que um candidato repassa para outro, é necessário preencher o doador originário.

    O investimento com recursos próprios ajudou a garantir 11 cadeiras ao PSDB, duas a mais que nas eleições anteriores. Os dois novatos são Aline Cardoso, com R$ 78,6 mil de Doria, e Daniel Annenberg, com uma contribuição mais humilde, de R$ 15,4 mil.

    Seis vereadores receberam quantias na casa dos R$ 100 mil: Eduardo Tuma, Gilson Barreto, Mario Covas Neto, Patrícia Bezerra, Claudinho de Souza e Salomão Pereira (este último não se reelegeu).

    Presidente municipal do PSDB, o vereador Covas Neto agora é cotado para assumir a presidência da Câmara.

    Para ele, a ajuda de Doria na campanha foi "fundamental". Porém sugeriu que a reportagem tenta fazer "fofoca" e "ilações de que as pessoas estão dependendo economicamente [do prefeito eleito]".

    "Fui eleito com 75 mil votos. Não fui eleito por causa do dinheiro do prefeito", disse ele, o quinto mais votado para a Câmara Municipal.

    O dinheiro de Doria também ajudou campanhas de vereadores de partidos coligados ao PSDB, como o PV, de Gilberto Natalini, que recebeu R$ 40,9 mil de Doria.

    Um dos principais opositores da atual gestão de Fernando Haddad (PT), Natalini diz que essa doação do prefeito eleito foi um acerto entre seu partido e o PSDB, mas afirma que isso não vai influenciar na sua independência.

    "Vou continuar com as minhas bandeiras. Agora, é claro que mudou a relação. Foi o prefeito que nós ajudamos a eleger. Quem ganha governa, quem perde fiscaliza."

    Puxadores de votos nos bairros e em igrejas, os vereadores também ajudaram a tornar a imagem de Doria mais conhecida.

    "É natural que o candidato majoritário [prefeito] faça transferências para candidatos proporcionais [vereadores]", afirma o advogado de João Doria, Anderson Pomini.

    No caso do PSDB, diz Pomini, as verbas partidárias também foram centralizadas nas campanhas dos prefeitos, de onde eram repassadas aos vereadores, em comum acordo entre a legenda e os candidatos majoritários.
    inédito

    Para o cientista político Marco Antonio Teixeira, da FGV (Fundação Getulio Vargas), a nova legislação gerou situação inédita. "Os financiadores costumavam ter influência sobre os parlamentares. No caso de Doria, além do poder de prefeito, pode se somar a isso o de quem financiou a campanha", diz o professor.

    A influência decorre, segundo ele, do fato de que os valores repassados podem ter ajudado a definir os vereadores que foram eleitos.

    Como a oposição permanente ao governo não deve passar as nove cadeiras do PT e duas do PSOL, ele prevê situação parecida com a da Assembleia Legislativa, onde dificilmente há contestação do Executivo estadual.

    Nas prestações de contas de campanha, a reportagem não localizou doações a candidatos a vereador de outros candidatos a prefeito.

    Dono de um conglomerado de empresas, o tucano declarou patrimônio de R$ 180 milhões. Em sua campanha, foram gastos R$ 14,1 milhões, valor que saltaria para cerca R$ 20 milhões caso a eleição fosse ao segundo turno, estimativa inicial da campanha.

    Colaboraram ANDRÉ MONTEIRO E JÚLIA BARBON, DE SÃO PAULO

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