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    Bairro de Miami que inspira projeto de Doria obtém lucro com grafite de rua

    SILAS MARTÍ
    EM MIAMI

    05/02/2017 02h00

    Era uma vez uma imensidão de galpões abandonados, de janelas lacradas, cegas à paisagem cinza recortada por cercas de arame farpado. Wynwood, hoje o bairro mais colorido de Miami, em nada lembra aquilo que já foi um dia.

    No fim da década de 1990, o distrito do balneário americano que o prefeito João Doria (PSDB) mira como modelo do "grafitódromo" que quer implantar na capital paulista era um descampado urbano -a antiga zona industrial perdeu suas fábricas para a China e ninguém se atrevia a andar por suas calçadas.

    "Não tinha gente por lá, era desolador. Era impossível tomar um café na rua", lembra David Lombardi, primeiro empresário a desbravar há 20 anos aquilo que mais tarde viraria um shopping a céu aberto decorado por murais de grafiteiros badalados. "Sem querer, descobri uma cena artística ali que poderia acontecer."

    Lombardi então usou a tal cena como maior arma de seu projeto de maquiagem urbana. Deixou que grafiteiros pintassem todos os prédios dos quatro quarteirões que comprou e logo passou a alugar os antigos galpões do bairro para galerias de arte -o bairro chegou a ter 60 delas.

    Na sequência, vieram restaurantes estrelados e butiques de luxo. Também vieram outros especuladores, como Tony Goldman, que "gourmetizou" a onda grafiteira convocando Jeffrey Deitch, poderoso galerista nova-iorquino, para fazer uma seleção dos melhores e mais rentáveis nomes para colorir as fachadas -as chamadas Wynwood Walls hoje atraem mais de 1 milhão de visitantes ao bairro a cada ano.

    Wynwood foi de cenário de filme de terror a meca hipster pelas mãos desses dois homens. Agora, entra no estágio final de evolução com o projeto do israelense Moishe Mana, que comprou as últimas quadras do bairro já com planos de erguer museus inteiros, com mais paredes entregues aos jatos de spray.

    Enquanto isso, desde que Doria iniciou seu programa zeladoria urbana, a cidade de São Paulo tem presenciado uma verdadeira "guerra do spray ". O prefeito promete agora criar lei para punir pichadores com multas de até R$ 50 mil, uma forma de desestimular essa prática.

    LOUVRE NA SARJETA

    "Será a maior instituição de arte do mundo, com 250 mil metros quadrados", diz um extasiado Gene Lemay, presidente executivo do projeto de Mana. "É maior do que o Louvre e o Metropolitan."

    Esse espírito empreendedor grandiloquente vem sendo turbinado desde a virada do milênio pela Art Basel Miami Beach, evento suíço que abriu na cidade americana o que veio a ser a maior feira de arte dos Estados Unidos.

    Ou seja, aquilo que Doria quer criar em São Paulo com respaldo da máquina pública é dominado pela iniciativa privada em Miami. Wynwood se tornou tão lucrativa que os empresários do bairro bancam do próprio bolso a limpeza das ruas e o reforço da segurança, já que, segundo eles, a prefeitura há tempos abandonou a região.

    Só agora, quase duas décadas depois, o governo local quer implementar uma lei para submeter projetos de murais em locais públicos à aprovação de um conselho -até aqui, os proprietários decidem o que fazer com as fachadas.

    Mas Wynwood, adianta a vice-diretora de planejamento urbano de Miami, Luciana Gonzalez, ficará de fora da regra, talvez porque ali o sistema não parece incomodar.

    David Snow, chefe do departamento de urbanismo de Miami, diz que a "arte não é regulamentada pela cidade". Também não faz distinção entre pichação e grafite. Tudo que não tenha sido autorizado pelo dono do imóvel, segundo Snow, é vandalismo.

    Não é um problema das ruas coloridas de Wynwood, onde empreiteiros vêm até construindo prédios com aluguéis mais baratos para quem se dispõe a sair grafitando galpões.

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