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    Igrejas atuam onde Estado não pisa para atender usuários na cracolândia

    ARTUR RODRIGUES
    DE SÃO PAULO

    05/06/2017 02h00

    Zanone Fraissat/Folhapress
    Culto religioso realizado pela Missão Batista Cristolândia para moradores e usuários de crack do centro de SP
    Culto realizado pela Missão Batista Cristolândia para moradores e usuários de crack do centro de SP

    Em meio à feira livre de drogas que existe na nova cracolândia de São Paulo, na praça Princesa Isabel, no centro, um missionário vestindo um hábito marrom corta o cabelo de um usuário de crack sentado à sua frente.

    Este tipo de cena, frequente na cracolândia, mostra que grupos religiosos têm conseguido chegar onde o Estado muitas vezes não pisa.

    Em um momento em que usuários de crack se julgam traídos pelo poder público após a ação policial na área no dia 21 de maio, e agentes de saúde municipais e estaduais tentam refazer vínculos com eles, é aos religiosos que muitos preferem recorrer.

    Mais de uma dezena de grupos missionários, de vertentes que vão da Igreja Católica a evangélicas batistas e neopentecostais, fazem há vários anos um trabalho permanente dentro dos limites da cracolândia, em que a evangelização e a assistência social caminham juntos.

    Era perto da meia-noite da última terça-feira (30) quando a irmã Bruna Mariana Costa, 27, do grupo católico Aliança de Misericórdia, batia papo com viciados na praça Princesa Isabel.

    Um homem de 39 anos, 30 deles usando drogas, se aproximou pedindo ajuda.

    Após uma conversa de 50 minutos, ficou combinado que iriam buscá-lo no dia seguinte. "De manhã, fomos até a maloca onde ele disse que costuma ficar, e ele estava lá sentado esperando."

    O homem ficará, primeiro, em uma casa de triagem na cidade de Rio das Pedras, no interior do Estado. Depois deverá seguir o tratamento em alguma outra casa ligada à Aliança de Misericórdia.

    "Não vou para a rua para tirar eles da rua. Eu vou para estar com eles. A consequência pode ser esse pedido de ajuda", diz Bruna, há dois anos morando numa casa a menos de um quilômetro da cracolândia, com outras irmãs celibatárias.

    O padre Júlio Lancelotti, da pastoral do Povo de Rua, diz que doações de comida, roupas ou um corte de cabelo são sinais que ajudam na aproximação. "É como se você dissesse: 'você é importante para mim'. Como servir alguma coisa para uma visita que vai à sua casa", afirma.

    Com os agentes sociais e de saúde, afirma o padre, a relação é menos natural. "Eles vão todos uniformizados, defendidos pela prancheta. Quando se sentem ameaçados chamam a GCM", afirma.

    PROXIMIDADE

    Além da Aliança de Misericórdia, há outras vertentes católicas que atuam na região prestando assistência aos dependentes: a Fraternidade do Caminho, Missão Eucarística dos Pobres e a Missão Belém –o maior dos grupos, que tem milhares de vagas para o acolhimento.

    Em comum entre os grupos católicos e evangélicos está a prática de vivenciar a pobreza, que inclui às vezes até passar noites dormindo na calçada. Entre os missionários, há gente que passou pelas drogas e viveu na rua.

    "A gente sabe o que eles sentem. Muitos de nós também já passaram por essa situação. Eu morei nas ruas, e também sei o caminho para sair delas", diz o missionário Marcelo Machado, 31, da Missão Batista Cristolândia.

    Em imóvel próximo de onde funcionava a feira de drogas, a entidade cristã dá assistência a mais de 300 pessoas por dia, que buscam roupas, comida ou um lugar para tomar banho.

    Diariamente, é servido um almoço para os usuários que costumam frequentar o culto religioso ao meio-dia. Mas, a qualquer hora do dia ou da noite, há gente estendida na calçada em frente à igreja com cobertores.

    Machado diz que o "maior objetivo é pregar o evangelho", mas que a ação social pode ser o melhor meio para isso. Neste trabalho na cracolândia, é natural que as diferentes religiões esqueçam as diferenças e atuem colaborando umas com as outras.

    SEM POLARIZAÇÃO

    Os missionários também passam longe da polarização que existe nas redes sociais entre quem é a favor do conceito de redução de danos e de abstinência completa.

    Para eles, tudo depende do que os usuários de drogas estão precisando no momento.

    Entidades costumam encaminhar os viciados para comunidades terapêuticas e clínicas que exigem a abstinência, incluindo as conveniadas com o governo estadual, mas também afirmam atuar para melhorar a qualidade de vida dos que ainda não se julgam prontos para deixar a cracolândia de vez.

    "Às vezes, querem ir para uma comunidade terapêutica. Às vezes, querem ir para casa que fica em outro Estado. Ou então almoçar ou apenas fazer uma ligação para a família", afirma Nildes Nery, 54, pastora da Igreja do Evangelho Quadrangular.

    Há 16 anos trabalhando na cracolândia, ela é conhecida por todos ali, onde também desenvolve o trabalho de sua ONG, que dá assistência aos viciados, a Ação Retorno.

    O trabalho se fundiu a tal ponto com sua vida pessoal que atualmente a pastora mora na alameda Dino Bueno, onde funcionava o fluxo da cracolândia original.

    "Não é fácil estar aqui, mas quando você cria vínculo e passa a cuidar deles, é porque tem um chamado específico por esse público, de amor incondicional ao próximo", afirma Nildes.

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