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    Análise

    Vídeo anticrack de Doria não tem perfil de usuários da cracolândia

    FERNANDA MENA
    DE SÃO PAULO

    30/06/2017 02h00

    Reprodução
    Protagonista de campanha da prefeitura, que mostra cenas como viagem ao exterior
    Protagonista de campanha da prefeitura, que mostra cenas como viagem ao exterior

    O vídeo apresentado pela gestão João Doria (PSDB) como parte de campanha de sensibilização para o problema do crack traz como protagonista um homem branco, com ensino superior completo e ao menos um filho, perfil que corresponde a 1,6% dos usuários que circulam pela cracolândia do centro de SP, segundo pesquisa Datafolha.

    A peça, veiculada agora na TV e nos cinemas da cidade a um custo de R$ 6 milhões, responde à demanda por prevenção, além de tratamento, da questão do abuso de crack.

    Nela, um homem transita entre fotos que remontam a sua história –a formatura, a sala de parto do filho, a neve em uma viagem ao exterior. Ao ver sua imagem desfigurada num espelho, ele chora enquanto surgem as frases "O crack destrói uma vida inteira. Quando você vê, já não se vê". E o slogan: "Crack. A melhor saída é nunca entrar."

    A cena é similar àquela protagonizada pela atriz Grazi Massafera ao interpretar a usuária de crack na novela "Verdades Secretas" (Globo).

    A iniciativa é exposta no momento em que ações na cracolândia fizeram os usuários migrarem de um lado para outro do centro –agora sem a feira de drogas a céu aberto dominada por uma facção.

    O perfil ali levantado pelo Datafolha é similar àquele encontrado pela Pesquisa Nacional sobre Uso de Crack da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que entrevistou 21 mil usuários em 2013.

    Isso indica que a peça de prevenção da prefeitura focou na exceção, e não na regra, o que tende a dificultar a identificação de grupos vulneráveis ao mesmo tempo em que distancia a população geral da realidade de quem sofre com a dependência.

    A maior parte dos usuários da cracolândia é não-branco, solteiro, pobre e completou só o ensino fundamental. Muitos trazem histórias de perda, abuso e violência. Quase metade passou pela prisão.

    Portanto não é apenas pelo desencontro demográfico que o vídeo chama a atenção, mas por tratar a dependência como questão de falência individual, e não como sintoma de falência social. Afinal, é nos estrados mais vulneráveis da sociedade que está a maior parte dos usuários problemáticos de crack.

    O publicitário Átila Francucci, criador da peça, diz que "ela conversa principalmente com aqueles que não sofrem de dependência" com "impacto, emoção e didatismo".

    Para Zila Sanchez, do departamento de medicina preventiva da Unifesp (Universidade Federal de SP) e do comitê internacional de diretrizes de prevenção do Escritório das Nações Unidas para Drogas e Crime (Unodc), "se o foco é o não-dependente, o melhor seria abordar as drogas que em geral antecedem o consumo do crack, como álcool e inalantes".

    "No caso do crack, a prevenção passa pela questão da vulnerabilidade social", diz ela, para quem a peça é "estigmatizante e, por isso, pode distanciar usuários do acesso ao tratamento".

    Segundo Maurício Fiore, coordenador científico da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, "a aura negativa já existe em relação ao crack e ela não impediu as pessoas de usarem a droga", portanto, a "campanha ajuda em quase nada a prevenir seu uso problemático".

    Já segundo o psiquiatra Artur Guerra, coordenador do Redenção, programa municipal de tratamento de dependentes, este é "o início de uma ação multifacetada" que deve abordar outros perfis, como jovens negros e mulheres grávidas.

    'JUST SAY NO'

    Ao dizer que "a melhor saída é não entrar", a estratégia remete à campanha "Just Say No", da ex-primeira-dama dos EUA Nancy Reagan (1921-2016). Durante a gestão Reagan (1981-1989), o número de jovens que experimentou drogas diminuiu, mas não foi possível estabelecer relação de causa desta mudança com a campanha.

    Para Guerra, "nenhuma campanha tem o poder mágico de diminuir o uso de crack". "Mas isso não impede que a gente aja neste sentido", diz.

    Sanchez cita que a ONU avalia campanhas na mídia como "de pouco resultado e alto custo". Ela afirma que prevenção nesta área se faz principalmente com programas em escolas, comunidades e famílias e tem foco, não na droga, mas na vida de jovens vulneráveis.

    Segundo ela, pelo mesmo valor da primeira ação da prefeitura, seria possível implementar programa de prevenção que atendesse à quase totalidade dos 416 mil alunos do ensino fundamental da rede municipal.

    Na avaliação de Mariângela Haswani, professora de comunicação governamental da USP, o vídeo "não deixa claro com quem se está falando, o que o faz funcionar mais como peça publicitária da gestão Doria do que como campanha de prevenção". "Ainda assim, a peça pode chamar a atenção de alguns públicos para a questão do crack."

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