• Cotidiano

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    Moradora de rua trans quer alugar casa após emprego da prefeitura de SP

    THIAGO AMÂNCIO
    DE SÃO PAULO

    21/07/2017 02h00

    Da primeira vez que usou drogas, Paula Rocha tinha 17 anos, vivia em Araraquara (interior paulista) com seus 12 irmãos e ainda era Paulo. Da última vez, já tinha 40 anos, morava na rua e acumulava algumas cicatrizes.

    Nesse meio tempo, foi viver na capital, mudou de nome e maneira de vestir, ganhou dinheiro com seu salão de beleza, casou-se, comprou chácara e três carros, perdeu tudo para o crack e viveu até mesmo dentro de um bueiro.

    Agora, aos 42 anos, tenta reconstruir a vida, com o primeiro emprego fixo em anos, no programa "Trabalho Novo", da Prefeitura de São Paulo, que incentiva empresas a contratar moradores de rua. O projeto já empregou 1.045 pessoas e tem como meta conseguir vagas para 20 mil até o fim do mandato do prefeito João Doria (PSDB).

    A meta anunciada inicialmente era conseguir as 20 mil vagas até o fim deste ano, de modo a criar 123,4 postos por dia daqui até 31 de dezembro. A gestão, agora, postergou o prazo –até o fim de 2020.

    A prefeitura diz, em nota, que "não tem medido esforços" para criar os postos de trabalho até o final da gestão. "Cabe ressaltar que o país está enfrentando uma crise econômica, o que acaba dificultando o processo de abertura de vagas em empresas".

    CABELEIREIRA

    Paula trabalha como cabeleireira em duas tendas da prefeitura montadas na região da Luz (no centro da cidade e próximo da cracolândia) para acolher usuários de droga e moradores de rua. Nas tendas, além de corte de cabelo, há banheiros, contêineres com oito camas em cada um deles, café da manhã, almoço e jantar e atendimento psicológico.

    Quando foi chamada para trabalhar como cabeleireira, Paula diz que nem acreditou: ganhou a vida com isso quando veio para São Paulo e se descobriu transexual. Com seu salão no Tucuruvi, região norte da cidade, conseguiu uma vida confortável.

    Até aí, só usava cocaína. O problema maior foi quando descobriu que o marido, com quem morava havia 10 anos, a traía. "Eu me senti perdida, nunca acreditei que ele ia me trair", afirma ela, que botou o homem pra fora de casa.

    Primeiro veio a dificuldade financeira: era ele quem administrava as contas, e ela perdeu o controle do aluguel, das parcelas da chácara que comprou e do imposto dos carros. Depois, emocional. "Conheci um povo e comecei a beber e usar crack, como fuga mesmo." Vendeu o que tinha para comprar droga.

    Quando ficou um mês sem pagar o aluguel de casa, foi despejada e espancada pelo locador do imóvel, relata. "Ele dizia que ia cortar meu pênis, que ia me matar. Quebrou meus dentes, furou minha cabeça toda. Vocês não veem porque eu uso aplique", diz. "Tudo isso porque eu não paguei o aluguel por um mês, e porque a gente é travesti e é usuária, não tem apoio nenhum da sociedade".

    Saiu de casa e foi morar num bueiro, próximo à avenida Tiradentes, em Guarulhos, com uma amiga usuária de drogas. "Quando chovia, inundava e levava tudo. Meus documentos, habilitação, documento da chácara, foi tudo pra dentro do esgoto."

    "Passei por tudo. Sou diabética e usava droga para esquecer a fome, já que não me davam o que comer. Me negavam até água", conta ela. "A partir desse momento, eu fui saber o que era a rua." Prostituiu-se: "era xingada, levava ovada, fazia programa, não queriam pagar e eu ainda apanhava depois".

    "As meninas, as trans, têm preconceito dentro de casa, na rua, com o marido, com tudo. A gente não é aceita de jeito nenhum", reclama. "Tinha medo de dormir sozinha. Saía andando, conversando com Deus à noite, 'eu não mereço isso, nunca fiz mal a ninguém'. Só a gente sabe o que passou na vida." Até que conheceu o novo namorado, há dois anos, também morador de rua, que a ajudou a parar de usar crack.

    "Eu acordava com o coração palpitando. Bebia cinco corotinhos [garrafa pequena de cachaça] e fumava 40 pedras de crack por dia. Nem fazia mais efeito", afirma.

    Hoje, diz que não tem mais vontade de usar. "Passou um tempo, fui lá, catei um cachimbo, catei a pedra, falei: 'Será que eu vou sentir vontade de fumar de novo?' Na hora que me veio aquele cheiro, minha filha, falei: 'Isso não me pertence mais, não quero mais", relata.

    BALELA

    De albergue em albergue, fazia bicos em um salão, mas saiu porque pediram que fosse "trabalhar vestida de homem". "Eu sempre fui do jeito que eu quis. Se for pra gostar de mim, vai gostar assim. Eu não peço pra você gostar de mim", afirma ela.

    Até que soube do programa da prefeitura –por funcionários de um centro de acolhida. Fez um curso e esperou ser chamada por quatro meses. "Achei que não ia dar em nada, que era balela", conta. Mas foi contratada. Com o emprego novo, onde está há um mês, ganha "um pouquinho mais que um salário [mínimo]", tem direito a vale-refeição e vale-transporte.

    Economiza, com o namorado, para tentar alugar uma casa –hoje, vive em um centro de acolhida da prefeitura na Casa Verde, zona norte. "Se eu consegui sair do crack, que ninguém consegue, consigo subir na vida de novo. A única diferença da minha vida para a sua é que minha opção sexual é uma, a sua é outra. Se você pode, eu também posso", afirma.

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