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    Pedágio eletrônico terá bônus para difundir novo modelo de cobrança

    FABRÍCIO LOBEL
    DE SÃO PAULO

    23/07/2017 02h00

    Zanone Fraissat/Folhapress
    Pedágio na Imigrantes, que leva ao litoral sul paulista, onde há cabines de cobrança automática
    Pedágio na Imigrantes, que leva ao litoral sul paulista, onde há cabines de cobrança automática

    Quando dirige seu carro pela rodovia dos Bandeirantes, saindo de São Paulo em direção a Indaiatuba (a 98 km da capital), Rosely Uehara, 58, sempre fica tensa no quilometro 26 da via. "Vai abrir ou não vai? Vai abrir ou não vai?", pensa. Diante da recusa da cancela do pedágio eletrônico em liberar sua passagem, Rosely admite: "Xingo muito! Pago sempre o meu plano em dia, e o pedágio não reconhece meu dispositivo."

    Já para o motorista da Uber Marlon Luz, 36, que leva passageiros entre São Paulo e Barueri, o uso do sistema automático nos pedágios é essencial. "Se cada vez que eu passar tiver que parar nas cabines manuais, é tempo e dinheiro que eu perco."

    Independentemente da experiência dos motoristas, o pagamento eletrônico de pedágios deve ficar cada vez mais presente. Incentivar este modelo, inclusive dando desconto, é uma das estratégias do governo Geraldo Alckmin (PSDB) para difundir o chamado pedágio Ponto a Ponto.

    Na prática, futuramente as concessionárias poderão ampliar postos de controle de veículos ao longo de uma estrada (ou em suas entradas) e cobrar de maneira mais específica pelo trecho de deslocamento dos motoristas. A adoção do modelo é controversa, principalmente em manchas urbanas.

    PEDÁGIOS ELETRÔNICOS - % dos pagamentos de pedágio feitos eletronicamente

    BÔNUS

    A difusão de praças de pedágio e os valores cobrados –chegam a R$ 25,60 para carros de passeio na Anchieta e Imigrantes– se tornaram pedra no sapato de gestões tucanas em São Paulo nas últimas duas décadas, alvo de desgaste em sucessivas eleições.

    O uso do sistema automático de cobrança –implantado em São Paulo em 2000– passou a ser em 2011 a forma predominante de pagamento de pedágio no Estado.

    Desde 2014, porém, o meio eletrônico está estagnado no patamar de 58% dos pagamentos feitos nas rodovias. Para implantar o modelo Ponto a Ponto de maneira ampla, a gestão Alckmin avalia que deve estar na casa dos 80%.

    Por isso, os novos contratos de concessão de estradas paulistas estão sendo assinados com uma cláusula que dá desconto de 5% no pedágio ao motorista que passar usando o dispositivo eletrônico.

    Os primeiros trechos que deverão ter desconto serão os que saem de Ribeirão Preto (a 313 km de SP) a Igaratá e a Bebedouro. A mudança será possível porque uma nova concessionária assumirá essas estradas em março de 2018.

    Até o fim do ano que vem, o avanço dos descontos deve atingir estradas que saem de Ribeirão com destino a São Carlos, Araraquara, Franca e Santa Rita do Passa Quatro.

    Para 2018 ainda está previsto o desconto no trecho norte do Rodoanel. O plano é expandir para toda a malha estadual, conforme forem assinados ou renovados os contratos.

    Entre os benefícios listados estão a modernização do sistema, a redução da lentidão, a diminuição da emissão de poluentes derivado da queima de combustíveis e o aumento da segurança viária.

    Segundo estimativas da Artesp, a cada carro que passa pelas cabines com cobrança manual, quatro passariam pelo sistema automático.

    Mas relatos de falhas do sistema, que obrigam veículos a pararem subitamente, provocando risco de acidentes, são frequentes –como os vividos por Rosely Uehara.

    Atualmente, quatro empresas estão habilitadas: Sem Parar, ConectCar, Move Mais e Veloe (autorizada a operar no setor há dois meses). Todas são obrigadas, segundo a Artesp (agência estadual que regula o setor), a oferecerem um plano sem adesão e sem mensalidade que seja compatível com as rodovias paulistas.

    Editoria de Arte/Folhapress

    DEMORA

    Com o desconto, o governo do Estado tentará expandir o modelo Ponto a Ponto, testado nas estradas paulistas desde 2011. Naquele ano, um protótipo foi desenvolvido em estradas entre Sorocaba e Campinas, passando por Indaiatuba, e contou com a adesão voluntária de motoristas.

    A partir do protótipo, outros três trechos foram implementados até 2014. Desde então, não houve avanços. Segundo a Artesp, os antigos contratos com as concessionárias amarram o modelo.

    "O problema do Ponto a Ponto é que as rodovias não foram projetadas para esse modelo e os contratos não permitiam essa modalidade", afirma o diretor-geral da agência, Giovanni Pengue Filho.

    ÁREA URBANA

    A implantação de pedágios que flagram a passagem de motoristas por trechos cada vez menores é uma modernização do sistema aprovada por especialistas em transporte por trazer maior "justiça tarifária" nas estradas.

    O receio, porém, é de que o excesso desses pontos de cobrança automática leve a uma sobretaxa em áreas urbanas adensadas ou onde os motoristas não tenham outra opção para se locomover.

    Pelo sistema que está sendo incentivado pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB), em vez de grandes praças de pedágio, as rodovias passarão a ter pórticos que automaticamente identificam a passagem do motorista.

    O valor pago futuramente em meio eletrônico pelo motorista será proporcional à quantidade de pórticos por onde passar.

    A principal vantagem, de acordo com o governo e especialistas ouvidos pela Folha, é a adoção de um modelo que cobre de maneira mais justa os motoristas em uma rodovia.

    Hoje, um condutor que trafegue por 30 km em uma estrada pode não pagar pedágio, a depender do seu ponto de entrada e de saída da via. Enquanto isso, outro motorista, andando cerca de 5 km na mesma estrada, pode ser obrigado a passar por uma praça de pedágio e pagar uma tarifa cheia.

    A lógica do modelo Ponto a Ponto é espalhar pelas rodovias sensores que identificam a passagem dos carros num intervalo menor do que a distância atual entre praças de pedágio. A partir disso, os motoristas são cobrados proporcionalmente ao seu deslocamento.

    Cerca de 310 quilômetros de rodovias paulistas já têm o sistema implantado. Cada um dos pontos cobra o motorista de R$ 0,90 a R$ 5,80, a depender do local. Na prática, o sistema acaba pegando motoristas que usam a rodovia e que antes não eram tarifados.

    O problema, segundo engenheiros de trânsito, é que a grande parte dos carros que hoje não pagam pedágio em rodovias trafega por áreas urbanas.

    "Em muitos casos, a rodovia separa bairros do resto da cidade. Quando isso ocorre, geralmente não há alternativa para o motorista se locomover, senão pela estrada", analisa o consultor em transporte Flamínio Fichmann.

    Para ele, nesses casos é preciso evitar que cidades cortadas por rodovias tenham sensores de cobrança. "Senão, o morador terá que pagar pedágio para comprar pão", diz.

    A tese também é defendida pelo engenheiro e mestre em transporte Sergio Ejzenberg. "Na maioria das vezes, quem mora no entorno da rodovia é mais pobre. Se forem cobrados por cada deslocamento, o sistema que deveria trazer justiça tarifária se torna um instrumento de injustiça social."

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