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    Sunday, 17-Dec-2017 00:18:49 BRST

    Minha História

    Após enfrentar preconceito, surdo vira professor de história em São Paulo

    Depoimento a (...)
    PAULO SALDAÑA
    DE SÃO PAULO

    14/08/2017 02h00

    Adriano Vizoni/Folhapress
    SAO PAULO - SP - BRASIL, 11-08-2017, 14h00: MINHA HISTORIA - PROFESSOR SURDO. Retrato de Valter Lenine Fernandes, professor que e surdo e leciona na escola para surdos da prefeitura Neusa Basseto, no bairro da Mooca. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress, COTIDIANO) ***EXCLUSIVO FSP***
    Valter Lenine Fernandes, professor surdo que leciona na rede municipal de São Paulo

    RESUMO O carioca Valter Lenine Fernandes tem 33 anos e nasceu com surdez bilateral com perda profunda –o que significa não ouvir praticamente nada. Aprendeu a falar efetivamente só aos 22 anos, já na faculdade.

    Mestre em história, ele pretende ser o primeiro surdo a defender o título de doutor na USP em História em português e em Libras (Língua Brasileira dos Sinais). Ingressou neste ano na rede municipal de São Paulo, sendo um dos quatro professores com surdez profunda a atuar nas escolas da cidade.

    *

    A minha comunicação era gritando até os 10 anos. Eu não falava, e a comunicação era com sinais. Nasci surdo.

    Pegava uma colher de pau e batia na minha mãe quando queria alguma coisa. O surdo tem um mundo próprio que os ouvintes não entendem. O primeiro idioma oficial do surdo é os sinais. E o segundo é a língua escrita.

    O português nunca é um sucesso para o surdo. É como um brasileiro na Inglaterra para aprender o inglês.

    Então o surdo se sente um estrangeiro dentro do próprio país. No meu caso, só aprendi o português aos 22 anos.

    Nasci na periferia do Rio, em Campo Grande, a duas horas do centro da cidade. Morávamos em uma comunidade chamada Vilar Carioca. Minha mãe é surda também. Era separada do meu pai, que tinha esquizofrenia. Por isso não convivi muito com ele, que faleceu há duas semanas.

    Tive pouco acesso à educação. Sempre estudei no ensino público, e não havia inclusão. O convívio não era muito bom na escola, eu ficava isolado. Até o ensino médio era aquela coisa das escolas que vão empurrando o aluno com algum tipo de deficiência.

    Meus colegas faziam brincadeiras por causa da minha voz. Eu não tinha a voz que eu tenho hoje, então me colocavam apelidos. Não era tranquilo, eu não conseguia falar as palavras, e fui me retraindo. Eu mesmo não tinha consciência da minha surdez, minha mãe também não tinha consciência do processo.

    Não recebi educação para os sinais e precisei aprender a leitura labial. Tive que me oralizar e fui aprendendo a falar sozinho. Sempre soube que a educação era o caminho.

    A minha forma de aprender melhor era lendo jornais velhos. Na época, sem acesso à internet, assinei uma revista pelo cartão da minha mãe escondido, estava no ensino médio. Lia tudo e guardava.

    A revista fez uma edição especial sobre os 500 anos do Brasil e colocou a carta do Pedro Álvares Cabral. Escrevi para a redação e pedi a carta na íntegra. Eles mandaram. Alguns anos depois, eu me formava em história.

    INTÉRPRETE

    Na faculdade, que era privada e já fechou, reprovei no primeiro, segundo e terceiro períodos. Não sabia o português, não conseguia acompanhar a aula. Mas lá fiz um amigo que percebeu minha deficiência e começou a traduzir todas as aulas para mim. Funcionou como intérprete. Foi ele que me ensinou o português ao longo da graduação.

    Minha leitura labial era muito fraca e ele escrevia todas as aulas, tudo que se falava. Fui pegando o ritmo.

    Acabei em 2007 e, no ano seguinte, comecei o mestrado na Unirio. Ao mesmo tempo fui dar aula de história em um polo de um curso superior à distância e em um colégio de ouvintes no Rio.

    Os alunos nem acreditavam que eu tinha deficiência. Como sempre tive de lutar, tento passar essa garra para os alunos. Todo mundo me pergunta como consigo ver a bagunça dos alunos. Eu coloco um espelho para ver o que está acontecendo atrás. Os alunos ficam revoltados!

    No Rio, havia sido reprovado em cinco processos seletivos para o doutorado. Não conseguia passar pela dificuldade com o português, não tinha adaptação da prova, não conseguia me expressar na entrevista, não tinha cotas.

    Eu não acreditava em chegar à USP. Até hoje eu não acredito. Sou provavelmente o primeiro surdo na USP a defender o doutorado. Entrei em 2012 e quero defender minha tese, provavelmente em março, em português e Libras.

    No doutorado tive a chance de viajar para o exterior. Fui pesquisar arquivos na Inglaterra. Em Portugal, fui para a Universidade de Lisboa. Aquela carta da revista me fez trabalhar com o período colonial. Meu mestrado foi sobre a colonização do Brasil a partir de uma instituição específica, a alfândega. No doutorado dou continuidade a isso.

    PRECONCEITO

    Mas aqui também sofri muito preconceito nas entrevistas em colégios particulares da cidade. Foram mais de dez colégios, passava em todas as etapas, quando eu falava que era deficiente auditivo, era cortado. Também fui recusado em uma faculdade. Sentia uma impotência. Pensei em desistir já que não era aceito.

    No concurso da prefeitura passei em 2º lugar [entre candidatos com deficiência]. Sou um dos poucos professores surdos na rede municipal.

    Como ainda não fizeram a convocação, entrei em abril como contratado na escola bilíngue para surdos Neusa Bassetto, na Mooca. Sou o único professor surdo. Há tutores de Libras, mas não professores. Nem a equipe acreditava que um surdo poderia ser professor, nem as famílias.

    As aulas são sempre em Libras, mas, como sou oralizado, tem alguns surdos que estão querendo falar. E alguns que querem ser professor.

    Participo do Instituto Escuta, voltado para crianças surdas filhas de pais ouvintes. Quando falo com mães, elas me perguntam 'Quando você começou a falar?'. Eu mesmo nem sei, digo, porque até hoje estou aprendendo.

    Todo dia eu tenho de fazer horas de exercícios, vou na fonoaudiologia. Às vezes eu interrompo e é como se eu estivesse parando de falar, voltam todas as dificuldades.

    É engraçado que as pessoas viajam para outros países e querem aprender outro idioma. Dão um jeito de aprender o mínimo, a dar bom dia em outra língua. E quem sabe dar bom dia para o surdo?

    Eu tinha uma baixa auto-estima por questão da surdez, mas aí fui ganhando independência. E tenho certeza que a surdez me dá até um charme.

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