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    Disputa entre facções criminosas faz disparar os homicídios no Nordeste

    CARLOS MADEIRO
    FLÁVIO COSTA
    DO UOL

    24/08/2017 02h00

    Magnus Nascimento/Tribuna do Norte
    Remoção dos corpos de 13 vítimas de chacina em Ceará Mirim (RN); Estado teve disparada de mortes
    Remoção dos corpos de 13 vítimas de chacina em Ceará Mirim (RN); Estado teve disparada de mortes

    "O salve [ordem escrita] é para matar quem for PCC. Hoje mesmo mataram um e mandaram um vídeo. Quando sair, tem que rasgar a camisa e ficar de boa", diz, por telefone, um homem investigado, sendo retrucado em seguida por uma mulher também investigada. "Não tem que rasgar a camisa, não; tem que arrancar a cabeça dele."

    O diálogo interceptado pela polícia de Alagoas está transcrito em uma decisão judicial de 28 de abril de 2017, em que a defesa dos dois suspeitos de tráfico de drogas pedia a liberdade da prisão preventiva. A Justiça negou por entender que a soltura da dupla traria riscos à sociedade.

    A conversa revela um cenário que já é percebido pelas autoridades do Nordeste e fez o número de assassinatos explodir, comparando-se os números do primeiro semestre deste ano com o mesmo período do ano passado: aumento de 11% em Alagoas, 25,4% no Ceará e 22,4% no Rio Grande do Norte.

    São nesses três Estados que a maior facção criminosa do país, o PCC (Primeiro Comando da Capital), está mais presente no Nordeste. E, em todos eles, está em guerra com o CV (Comando Vermelho) e facções locais por espaço dentro e fora dos presídios.

    Decisões dos tribunais de Justiça dos outros seis Estados nordestinos, às quais o UOL teve acesso, indicam que o grupo criminoso paulista está presente em toda a região.

    Segundo levantamento do Ministério Público de São Paulo, o Nordeste e o Norte já respondem por um terço de filiados do PCC. Os nove Estados nordestinos juntos teriam 3.818 filiados à facção (sendo 73% desse total em AL, CE e RN).

    "Esses Estados têm mais membros 'batizados' do PCC porque são os que, originalmente, detinham em seus sistemas prisionais o maior número de detentos paulistas, que já eram do PCC e passaram a cooptar criminosos locais", afirma o promotor Lincoln Gakiya, membro do Gaeco (grupo de combate ao crime organizado) do Ministério Público de São Paulo.

    Investigações oficiais detectam a presença do PCC no Nordeste desde, pelo menos, 2006, quando foi realizada a CPI do Tráfico de Armas.

    À época, a investigação revelou que o chefe da facção paulista, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, enviou o traficante Sidnei Romualdo para comandar ações do PCC na região. Paraibano criado em Diadema (SP), Sidnei foi preso em Pernambuco. Há dois anos, tentou sem sucesso escapar de uma prisão em Sergipe.

    Reinaldo Jorge / Diareio do Nordeste
    Local onde ocorreu um duplo homicídio em Fortaleza; Ceará tem o 2ª maior nº de filiados ao PCC no país
    Local onde ocorreu um duplo homicídio em Fortaleza; Ceará tem o 2ª maior nº de filiados ao PCC no país

    AS CAUSAS DA GUERRA

    Durante um mês, o UOL investigou a participação e influência de grupos "forasteiros" nesse aumento de mortes violentas nos Estados nordestinos. A disputa tem origem na guerra que opõe o PCC ao CV. O maior grupo criminoso do Rio de Janeiro é parceiro das facções regionais, que são contra a tendência monopolista do grupo paulista, apurou a reportagem.

    "O PCC tem um caráter monopolista. Tem o desejo de controlar todas as rotas de tráfico de drogas e os principais mercados do país e isso inclui, obviamente, a região Nordeste", afirma o procurador de São Paulo Márcio Sergio Christino, especializado em investigações sobre o PCC.

    A guerra entre PCC e CV remonta a 2013 e teve origem em Mato Grosso. Lá, membros do CV local passaram a impedir que o PCC cooptasse novos criminosos em presídios. A postura começou a ser seguida por outras facções regionais e franquias do CV. "No CV, cada facção tem autonomia para agir como quiser em seu território", explica Gakiya.

    São consequências dessa disputa os massacres registrados nos últimos meses em presídios, a exemplo do ocorrido em Manaus em janeiro, quando a FDN (Família do Norte) matou 60 integrantes do PCC.

    "Temos certeza de que as mortes cresceram [pela guerra de facções], todas as inteligências apontam isso", afirma o secretário de Segurança de Alagoas, Lima Júnior.

    "Tivemos um pico nos três primeiros meses [do ano], após a matança nos presídios. Dali desencadearam esses comandos para se matarem, e isso tem por trás a disputa nacional pelo tráfico."

    Em Alagoas, o número de assassinatos cresceu 12% no primeiro semestre, em relação ao mesmo período do ano anterior. Foram 1.031 mortes, contra 923 nos seis primeiros meses de 2016. O número crítico, porém, aparece na capital, Maceió, com aumento de 69%: 372 mortes no primeiro semestre contra 220 em 2016.

    Segundo levantamento do Ministério Público, o Estado é o segundo em número de faccionados do PCC no Nordeste, atrás apenas do Ceará. No levantamento, seriam 970. Mas a secretaria alagoana já contabiliza mais de 1.300 nomes ligados à facção. No Estado, a guerra é diretamente entre ligados ao PCC e ao CV, sem "intermediários".

    O Ceará é o segundo Estado do país em número de filiados do PCC e enfrenta graves problemas na segurança pública. No primeiro semestre deste ano foram 2.229 mortes violentas, contra 1.777 no mesmo período do ano passado, crescimento de 25,4%.

    O Estado tem uma ligação histórica de cooptação de grupos como o CV, ainda na década de 1990, e do PCC, nos anos 2000. O assalto ao Banco Central, em 2006, teve participação da facção paulista.

    Procurada, a Secretaria de Segurança Pública do Ceará disse que, para coibir a atuação de grupos criminosos no Estado, criou em 2016 a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas. Já a Divisão de Homicídios teve o número de delegacias ampliado de 5 para 11 em 2017.

    A situação no Rio Grande do Norte é ainda mais grave: a crise de segurança explodiu após a matança dentro do presídio de Alcaçuz, em Nísia Floresta (Grande Natal).

    No primeiro semestre, o Estado registrou 1.202 mortes, contra 982 no mesmo período ano passado –um aumento de 22,4%. Se seguir neste ritmo, o Estado terminará o ano com 77 homicídios a cada 100 mil habitantes, algo nunca registrado em uma unidade da federação brasileira.

    "O fato é que o Estado falhou e falha diariamente em prover um serviço de qualidade para todos. Nessa atitude apática se consolidou uma ausência de empenho e esforço estratégico no combate à formação e ao fortalecimento desses grupos criminosos", afirma o pesquisador Ivênio Hermes, coordenador do Obvio (Observatório de Violência Letal Intencional).

    O Obvio é um grupo de estudos ligado à Ufersa (Universidade Federal Rural do Semi-Árido) e que faz a contabilidade de homicídios no Estado do Rio Grande do Norte.

    Procurada por diversas vezes, por e-mail e telefone, em julho e agosto, a Secretaria de Segurança Pública do RN não se manifestou sobre o aumento no número de homicídios e a guerra de facções.

    A questão das facções se tornou uma preocupação tão intensa que será alvo de debate inédito entre os gestores da área dos Estados da região.

    "Nós temos uma reunião em 24 de agosto, e um dos pontos de pauta é a questão das facções e a influência do PCC e do CV. É um fenômeno que a gente tem ouvido dos detidos", diz Maurício Barbosa, secretário de Segurança Pública da Bahia e presidente do Conselho de Secretários de Segurança do Nordeste.

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