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    'Árvore que chora' mesmo em dias de seca intriga pedestre na Vila Madalena

    MARIANA ZYLBERKAN
    DE SÃO PAULO

    03/10/2017 02h00

    Um pingo, dois pingos. Geralmente, é somente a partir do terceiro que quem passa debaixo da "árvore que chora" olha para cima para entender de onde vem a água.

    Entre as folhas, nenhuma pista. Nem sinal de algum passarinho elegendo o sortudo da vez. Mesmo assim, não dá para seguir a caminhada sem se perguntar a razão pela qual o chão está molhado. Várias poças se juntam e chegam a formar um fio d'água.

    O céu azul e o tempo quente podem sinalizar que não houve chuva por ali. Por isso, quem passa pela escada da praça General Rufino Galvão, na Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo, tenta entender a origem das gotas, grossas e pesadas, que caem constantemente das folhas.

    A praça é movimentada por pedestres que cortam caminho por dentro do bairro até a estação Vila Madalena da linha 2-verde do metrô, que fica a poucos metros dali.

    O atalho é usado principalmente por quem desce das linhas de ônibus que passam pela rua Harmonia vindas dos bairros da zona norte. A praça também serve de ponto de encontro para grupos de corrida de rua.

    Duas mulheres que sobem a escada se entreolham e dividem a curiosidade. Uma pergunta se sentiu os pingos, e a conversa prossegue escada acima sobre o incômodo causado pelas tardes quentes que não têm dado trégua.

    Um grupo de adolescentes com mochilas nas costas passa correndo e, ao sentir os pingos, um deles acusa o outro de ter cuspido em seu braço. A discussão vira brincadeira, e a correria continua. Outra garota que passa com mais duas amigas avisa que a "árvore é nojenta", e as três desviam da parte onde o concreto está molhado.

    No topo da escadaria, as gotas quase sempre viram conversa diante da guarita do vigia Domingos Moreira, 42. Ele controla a entrada de moradores na rua de cima, fechada por um portão para o trânsito de carros de fora, e acaba sendo a referência para explicar a origem do mistério.

    "Muita gente passa por aqui e me pergunta por que está chovendo só debaixo da árvore", diz o vigia, que já se acostumou com o pinga-pinga que faz barulho no teto de amianto de sua guarita. "Uma moradora veio perguntar se eu tinha jogado água na rua, e eu expliquei que era da árvore."

    O assunto é retomado várias vezes, principalmente, no fim da tarde, quando aumenta o fluxo de pessoas.

    "Por que essa árvore está pingando?", quis saber a bancária Rosângela Souza, 42. "É coisa da natureza", respondeu Domingos.

    Sim, é coisa da natureza. O consultor em paisagismo Ricardo Cardim explica que o fenômeno é causado por uma espécie de praga que se alimenta da seiva e expele a água resultante do processo. "Algumas espécies como a Sibipiruna, que faz parte da praça, são acometidas de tempos em tempos por esses bichinhos", explica. Por causa da viscosidade, os pingos deixam marcas nos carros estacionados.

    As estagiárias de nutrição Bianca Vigilato, 19, e Giovanna Cuesta, 19, passam todos os dias pela árvore para ir ao trabalho e começaram a perceber as gotas misteriosas há cerca de duas semanas.

    "Deve ser porque começou a primavera", imagina Giovanna. "A gente sempre passa e fica olhando para cima, mas, como não tem nenhum cano e nem está chovendo, ficamos sem entender mesmo", relata Bianca.

    O mistério também é recorrente na rotina da empregada doméstica Roseni de Souza, 59, que mora na rua de cima da praça e percebeu a chegada dos pingos há mais de uma semana. "Acho que é porque está muito quente e a árvore também transpira." Ela repara que a consistência dos pingos é diferente, mais pegajosa, e chega a provar. "Tem gosto salgado", diz.

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