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    Doria põe filho de executivo do lixo para fiscalizar a varrição no centro

    GUILHERME SETO
    DE SÃO PAULO

    11/11/2017 02h00

    Bruno Rocha /Fotoarena/Folhapress
    Varrição de ruas na Sé, no centro, onde Alexis Beghini é responsável por cuidar da fiscalização do serviço
    Varrição de ruas na Sé, onde Alexis Beghini é responsável por cuidar da fiscalização do serviço

    A gestão João Doria (PSDB) colocou um engenheiro estreitamente ligado a empresários de limpeza urbana para cuidar da fiscalização dos contratos terceirizados de varrição no centro de São Paulo.

    O nomeado, Alexis Beghini, 27, é filho de José Alexis de Carvalho, diretor de uma empresa contratada pela prefeitura para fazer a coleta de lixo na cidade e que é conselheiro do sindicato patronal do setor, além de acumular passagens de destaque por outras prestadoras do serviço.

    Beghini assumiu em 20 de setembro a Coordenadoria de Projetos e Obras da Prefeitura Regional da Sé, cargo mais alto responsável pela fiscalização na área. A função dele é coordenar os agentes para detectar, entre outras coisas, problemas em contratos de varrição nos distritos de Bom Retiro, Santa Cecília, Consolação, Bela Vista, República, Liberdade, Cambuci e Sé.

    A varrição foi alçada a símbolo da gestão por Doria, que chegou a se vestir de gari. Como revelou a Folha, porém, a quantidade de toneladas de sujeira varridas na cidade no primeiro semestre deste ano recuou 6% em relação a igual período de 2016.

    Beghini e a gestão Doria negam conflito de interesses. "Os presidentes dessas empresas [de limpeza urbana] me viram nascer, não posso negar, em reuniões me chamam pelo meu apelido, Lequinho. Mas eles sabem que não vai ter conversa", diz Beghini.

    Rivaldo Gomes - 2.jan.17/Folhapress
    Prefeito João Doria tira selfie vestido de gari em seu primeiro dia útil de trabalho
    Prefeito João Doria tira selfie vestido de gari em seu primeiro dia útil de trabalho

    REDE DE EMPRESAS

    Na Sé, a varrição está a cargo do consórcio Inova, composto pelas empresas Paulitec, Vital e Revita. O contrato de varrição com a prefeitura, assinado por R$ 1,12 bilhão em 2011, tinha validade de
    36 meses, mas foi prorrogado até dezembro de 2017.

    Além da limpeza, abrange a remoção de entulho, lavagem de vias, capinação, pintura de guias, desobstrução de bueiros e bocas de lobo e manutenção de lixeiras.

    A Vital é do grupo Queiroz Galvão, integrante do consórcio Ecourbis (detentor de contrato de coleta de lixo). No Ecourbis, a Queiroz Galvão é sócia da Marquise, na qual José Alexis é diretor.

    Outra empresa em que José Alexis trabalhou por 11 anos, até 2010, é a Vega Engenharia, pertencente ao grupo da Revita, também sob fiscalização de Beghini -ele mesmo foi estagiário na Vega por um ano e meio.
    José Alexis é integrante do conselho do sindicato das empresas de limpeza urbana de São Paulo, do qual Revita e Vital são associadas e que representa os interesses desses grandes grupos -como os fiscalizados pelo filho dele.

    Em agosto, Beghini e seu pai foram alvo de reportagens por terem sido vítimas de um sequestro organizado no Rio de Janeiro por um dos melhores amigos do rapaz.

    COLETA

    Beghini afirma que, além de fiscalizar os serviços de varrição, pretende aplicar multas na área de coleta de lixo no caso dos grandes geradores -locais que produzem volume superior a 200 litros diários de resíduos sólidos.

    "Nós [fiscais da Sé] não podemos multar na varrição, apenas notificamos, e infelizmente as notificações, pelo que soube, não têm se transformado em multa na Amlurb [autoridade municipal de limpeza] para as empresas.

    Agora a gente achou um decreto que permite que prefeituras regionais apliquem multas na coleta, e vamos começar a fazer isso. Se chegar em um lugar e ver lixo por três dias, posso aplicar multa", afirma.

    A prefeitura publicou um novo edital de licitação para os serviços de varrição na cidade, mas que foi suspenso em outubro pelo TCM (Tribunal de Contas do Município). Na avaliação do órgão, havia risco de prejuízo ao poder público no modelo proposto. Na quarta (1º), a licitação foi liberada, mas com exigência de mudanças. Entre elas, a melhora da fiscalização dos serviços das empresas.

    Tendo a zeladoria como uma de suas plataformas políticas, Doria trava disputa no PSDB com o governador paulista, Geraldo Alckmin, pela escolha do candidato do partido nas eleições à Presidência no ano que vem.

    Alckmin teve papel decisivo na escolha de Doria como candidato tucano na disputa municipal. Para ser candidato em 2018, o prefeito terá de deixar o cargo até abril.

    OUTRO LADO

    O engenheiro Alexis Beghini afirma que sua trajetória e a relação do seu pai com os empresários de limpeza urbana não vão interferir em seu trabalho de fiscalizador na Prefeitura Regional da Sé. "Não há conflito de interesses. Se você olhar pela ótica do poder público, é muito melhor. Todos aqueles vícios, erros e macetes conhecidos eu vou bater. Por exemplo, eu soube que a [empresa] Inova cortou em alguns bairros parte do efetivo. Sabendo disso, convoquei o presidente da Inova, porque não podemos ficar sem áreas cobertas", diz.

    "Nunca um diretor da [empresa] Loga tinha vindo na Sé. Agora já estão vindo para começar justamente a trabalhar. Estamos usando o conhecimento a nosso favor", diz, ressaltando que o pai não teve relação com a nomeação.

    Reprodução/Facebook
    Beghini (centro), com uniforme da Inova, faz ação na Sé
    Beghini (centro), com uniforme da Inova, faz ação na Sé

    A gestão João Doria diz que Alexis Beghini foi indicado ao cargo por suas qualificações. "É engenheiro civil formado pela Universidade Anhembi Morumbi [em 2015], frequentou cursos de gestão e liderança; negociação e gestão de pessoas e desenvolvimento da capacidade emocional todos cursados na FGV. É fluente em inglês e espanhol", afirma, em nota.

    Além disso, a prefeitura rejeita qualquer possibilidade de conflito de interesses. "O fato de Alexis ser filho de um executivo não o torna suspeito liminarmente. Qualquer ilação em contrário chega a ser ofensiva ao funcionário, pois parte da premissa de que, na função, ele estaria predisposto a prevaricar."

    A gestão diz que, em menos de um mês após a posse, houve "75 autuações de não conformidades da varrição, e todas enviadas para a gestora do contrato". Afirma que a média mensal é perto de 50. "Alexis já detectou algumas falhas em relação à instalação de papeleiras, além de outros problemas relacionados à questão do descarte de lixo e resíduos", diz. (GS)

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