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    Fuvest

    USP ganha com criação de cotas, mas debate tem que continuar, diz reitor

    PAULO SALDAÑA
    DE SÃO PAULO

    15/07/2017 02h00

    Eduardo Anizelli - 24.nov.2016/Folhapress
    Praça do relógio da Universidade de São Paulo
    Praça do relógio da Universidade de São Paulo

    A menos de seis meses do fim do mandato de reitor da USP (Universidade de São Paulo), Marco Antonio Zago avalia que a recente aprovação de cotas sociais e raciais da instituição consolida seus planos à frente da mais importante universidade do país.

    "Não tenho dúvida de que a USP só tem a ganhar com o novo perfil de estudantes", disse Zago, 70, à Folha.

    O reitor ressalta, porém, a importância de uma discussão permanente sobre a política –tanto para aprofundar iniciativas de inclusão como para acompanhar impactos na qualidade dos ingressantes. Parte dos críticos fala em riscos ao desempenho da USP.

    "Vamos ver os resultados dos próximos anos", diz. "Mas é muito bom que as pessoas continuem discutindo isso, que haja opiniões."

    O reitor adianta ser contrário a comissões de verificação de cor de pele para cotistas. Legislações municipal de SP e federal já preveem a ferramenta, e a Unesp anunciou comissão específica para atuar em casos de denúncias. "A função da universidade é abrir suas portas. Em caso de denúncia, [deve haver ação do] Ministério Público e processo por falsidade ideológica."

    % DE VAGAS QUE SERÃO RESERVADASPARA ALUNOS DE ESCOLAS PÚBLICASINCLUSÃO NA USP Sistema de cotas sociais e raciais deve ser implantado já no vestibular de 2018

    O tema cotas sempre foi um tabu histórico na USP –a última a estabelecer a política entre as universidades estaduais de São Paulo. No âmbito das federais, a lei de cotas já existe desde 2012.

    Mais de 80% dos alunos do ensino médio estão em escolas públicas, mas, neste ano, somente 37% dos ingressantes da USP vieram dessas unidades. O patamar não se repete em cursos tradicionais e concorridos, como engenharia e medicina. Esse foi o maior índice já alcançado na USP.

    No próximo vestibular, cujas inscrições começam em 21 de agosto, já passa a valer a reserva de vagas, aprovada no último dia 4 pelo Conselho Universitário (instância máxima da instituição).

    Do total de vagas, 37% serão destinadas a alunos de escolas públicas em 2018. A proporção deve subir para 40% em 2019, 45% em 2020 e, finalmente, 50% em 2021.

    Dentro da cota, deverão ser reservadas vagas para pretos, pardos e indígenas na mesma proporção da presença dessa população no Estado de SP, segundo o IBGE. Atualmente, esse índice é de 37%.

    Até 2021, os índices de inclusão devem ser respeitados por curso e turno. A política tem prazo de vigência de dez anos, e uma comissão vai acompanhar os resultados.

    Além do ingresso pelo vestibular da Fuvest, a USP inclui, desde 2015, vagas no Sisu (Sistema de Seleção Unificada, que usa a nota do Enem). Parte dessas vagas já é reservada.

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    Diego Padgurschi/Folhapress
    O reitor da USP, Marco Antonio Zago, 70
    O reitor da USP, Marco Antonio Zago, 70

    RAIO-X

    Idade: 70

    Cargo: reitor da USP desde 2014 e professor titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da universidade desde 1990

    Formação: médico, mestre e doutor em clínica médica pela USP; fez pós-doutorado em Oxford

    Carreira: foi presidente do CNPq de 2007 a 2010 e pró-reitor de pesquisa da USP de 2010 a 2013

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    CRISE FINANCEIRA

    Caso a economia do Estado de São Paulo tenha uma leve melhora, a USP conseguirá se ver fora da crise. É o que diz o reitor da universidade, Marco Antonio Zago. Pelo menos desde 2014 a instituição gasta mais com folha de pagamento do que recebe de recursos do governo estadual.

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    Folha - Em que medida a crise financeira da USP impacta nas ações da universidade, como na pesquisa?
    Marco Antonio Zago - Eu fui injustiçado pelo destino, porque me preparei a vida toda para ser reitor, quando eu pleiteei estava preparado para isso. Mas quando assumi, chega a notícia de que não só acabou o dinheiro, mas vamos gastar mais do que se imaginava. E tivemos que virar gestores de uma crise administrativa e financeira.
    Mas eu tenho a sensação de que, em grande parte, controlamos. Se a economia melhorar um pouquinho, a universidade está resolvida. Eu saio com essa satisfação. Muitos sonhos de incentivo à pesquisa não pude realizar, mas uma coisa é certa: a universidade não sofreu abalo sistêmico. Se a crise fosse mais prolongada, teríamos mais consequências.

    Como fica a situação do Hospital Universitário, que sofre com falta de funcionários e diminuição de atendimentos?
    Um dos nossos grandes problemas é quantidade de servidores em relação ao número de professores. Porque a missão central da universidade é educativa.
    O hospital infla o número de funcionários porque precisa, mas ter hospital não é necessário para ensinar profissões da saúde, e a maioria das universidades não têm.
    A maior parte do curso é feito no complexo do Hospital das Clínicas –a universidade gasta zero lá– e na rede básica municipal.

    O senhor ainda tem planos para este ano?
    O que havia de importante para fazer neste mandato foi feito. Quando começamos, tinha compromisso de fazer reforma estrutural na universidade. Houve mudança na forma de escolha dos diretores das unidades. Tradicionalmente, a unidade fazia uma lista tríplice, o reitor muitas vezes não escolhia o primeiro. A eleição se encerra no âmbito da unidade.
    Isso tem muitas consequências, a mais importante é que ela muda a estrutura do Conselho Universitário. Depois fizemos uma modificação muito importante em todo o sistema de avaliação e promoção da carreira. Isso começou a ser implementado agora. Quando falo em democratização da gestão, é trazer todas as decisões para o conselho.

    Sindicatos apontam que o senhor teve uma gestão ditatorial e não conversa. Por quê?
    Faz parte da disputa política. Não podemos esquecer que durante muitos anos os sindicatos tiveram força crescente nas decisões. Por muitos anos, teve período tradicional de greves, sabia-se que de maio a agosto haveria greve. Isso não está acontecendo mais. Isso obviamente os preocupa.

    O que se ganha com cotas?
    A USP existe para atender a sociedade e, agora, ela faz melhor sua função social. Ela sempre fez esse papel, permitiu ascensão social de muita gente que não teria oportunidade. Agora, o que há é uma enorme e clara pressão para que os jovens da classe média baixa, que não têm acesso ao ensino privado competitivo e que treina para o vestibular da Fuvest, cheguem à USP. Muitos são jovens altamente competitivos, brilhantes até, e que ficam no topo da sua categoria.

    A Lei de Cotas federal traz um critério de renda, para os mais pobres. Por que isso não ocorreu na USP?
    A USP não tem que olhar para a Lei de Cotas. A USP é muito orgulhosa disso, ela faz suas próprias análises e conclusões. A grande mudança começou quando aceitamos o Enem [em 2015]. Desmistificamos que para entrar na USP tem que passar no estreito da Fuvest. Quando a comunidade aceitou isso, aceitou discutir as formas mais variadas. E pode ser que em um ano ou dois, mude, e isso não seria nada excepcional. É muito bom que as pessoas continuem discutindo isso, que haja opiniões.

    O senhor diz que a USP tem orgulho de fazer por conta própria, mas por que a universidade não produziu estudos sobre a política de cotas? Na experiência das federais há evidências de que cotistas têm desempenho similar. O obstáculo era mais ideológico?
    Pode ser que tivesse esse componente [ideológico]. As pessoas de um modo geral entendem que a USP tem uma missão importante. O fato de ser a melhor da América Latina a coloca numa posição especial. As pessoas têm preocupação de que isso seja preservado e começam as discordâncias, de que isso poderia afetar esse papel de liderança.
    Progressivamente as pessoas foram entendendo que poderia ser diferente. Havia uma decisão anterior da universidade de que ela não adotaria esse sistema de cotas. Mas com o tempo a visão foi mudando. É prova de sabedoria que as visões mudem.
    E eu não tenho nenhuma garantia de que daqui a dois anos essa visão não será completamente mudada.

    O senhor recebeu queixas sobre uma possível queda na qualidade dos alunos? Como responder a essas críticas?
    Vamos ver os resultados. Recebi críticas e também se vê nos jornais. Mas o que todos têm de entender é que não é reitor que decide, é a vontade do Conselho Universitário. E o fato de o aluno ter dois pontos a menos na Fuvest não faz a menor diferença, porque nós sempre vamos escolher o topo de cada grupo. Tem crítica também de que não devia ser da escola pública, devia ser por classe. Mas tudo pode mudar mais tarde.

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