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    Jovens surdos ficam acuados em escola com medo de chegar ao ensino médio

    JAIRO MARQUES
    DE SÃO PAULO

    10/11/2017 02h00

    Tiago Augusto, 13, Lívia Raquel, 15, e Fernando Rodrigues, 19, são surdos usuários de língua de sinais e ainda patinam para conseguir sair do ensino fundamental. Dependem diariamente do intermédio das mães para suas relações sociais, pois sabem pouco da língua portuguesa e não veem boas perspectivas de acesso ao ensino médio.

    Os três, todos moradores de porções periféricas de São Paulo, exemplificam parte do desafio de pessoas com deficiência auditiva profunda de conseguirem ter acesso a uma formação de qualidade no Brasil, tema exigido na redação do Enem deste ano.

    O caso de Fernando é o mais dramático entre os três. Ele e a família já foram avisados de que, a partir do ano que vem, a escola municipal onde estuda, que é bilíngue (Libras e português), não poderá mais abrigá-lo, pois está no 9º ano, e ele deverá procurar uma unidade que disponha de ensino médio.

    Segundo a mãe, ao longo da vida escolar, o jovem foi "repetindo de ano" por dificuldade de aprender e por se sentir acuado em deixar o ambiente em que se acostumou. "Não sei o que fazer com meu filho. Não encontrei nenhuma escola bilíngue pública que atenda às necessidades dele. Também tentei um curso profissionalizante de desenho, que é a paixão dele, mas não existe nenhuma com instrutor que saiba Libras", afirma Maria Aparecida Rodrigues Lourenço, 50, mãe de Fernando e que trabalha como cuidadora.

    Joel Silva/Folhapress
    Mães e os filhos surdos: da esq. para a dir., Adriana com Tiago; Cleide com Lívia e Maria com Fernando
    Mães e os filhos surdos: da esq. para a dir., Adriana com Tiago; Cleide com Lívia e Maria com Fernando

    Embora não tenham autonomia total com o português –Tiago, por exemplo, é tido como semianalfabeto pela mãe–, os três gostam das escolas onde estão sobretudo porque têm suporte de transporte, uniforme, professores especializados e estão um pouco assistidos e protegidos.

    As mães dizem que chegaram a pedir repetidas vezes para que a prefeitura coloque o ensino médio nas escolas onde os filhos estão hoje, embora a obrigação legal dessa etapa da educação esteja com os governos estaduais.

    A Secretaria Municipal da Educação, ligada à gestão João Doria (PSDB), afirma que tem atendido as mães e que uma nova reunião está prevista até o final do ano. "A criança e o jovem tendem a deixar a escola por medo de sair de um ambiente linguístico, onde seu pensamento pode se dar de modo adequado [escolas bilíngues ou sinalizantes], para estudar em ambiente absolutamente hostil", diz Emilliano Aquino, da Universidade Estadual do Ceará e especialista em educação de surdos sinalizados.

    Lívia, que está no 8º ano mas já com idade para ingressar no ensino médio, tem receio do futuro, de não se adaptar a um colégio inclusivo, em salas regulares. Em sinais, diz: "Só espero que encontre uma escola feliz".

    Segundo a copeira Cleide Teodoro, 40, mãe de Lívia, apenas famílias que conseguem pagar por reforço escolar ou por instituições especializadas em educação de surdos conseguem ver progressos mais rápido no desenvolvimento dos filhos.

    ORALIZADOS

    Mesmo que a educação de surdos por Libras guarde as demandas educacionais mais gritantes e confronte com o modelo de educação inclusiva –em que todos aprendem juntos–, os surdos oralizados, aqueles que desenvolvem a fala e aprendem português, também enfrentam seus desafios de formação.

    Para a publicitária e blogueira Lak Lobato, expoente do grupo, "o aluno surdo oralizado também precisa de material adaptado, metodologia adequada. Mas, acima de tudo, precisa encontrar empatia dos profissionais de educação e interesse de incluir".

    Lak, que perdeu a audição na infância, fez o chamado implante coclear e retomou parte de sua capacidade de ouvir, entretanto, não considera que deixou de ser surda.

    "O implante não é uma cura. É uma tecnologia, apenas. Acabando a pilha, quebrando alguma peça, o aparelho não funciona, não temos acesso ao som", afirma.

    ESTRUTURA

    A Secretaria da Educação paulista, ligada à gestão Geraldo Alckmin (PSDB), informou que atende cerca de 4.500 alunos com surdez e que "o Estado é pioneiro no atendimento a estes estudantes".

    "Os alunos com deficiência auditiva/surdez matriculados na rede estadual recebem, quando se comunicam em Libras, acompanhamento na sala regular de professores intérpretes, que apoiam o professor da sala regular para traduzir os conteúdos ministrados", informou.

    Ainda segundo a pasta, "estes alunos recebem também atendimento nas salas de recursos no contraturno", que contam com professor especializado, recursos tecnológicos, internet, dicionário e recursos visuais em Libras".

    Para os alunos que não têm conhecimento em Libras, a secretaria diz que oferece o curso na plataforma da Escola Virtual de Programas Educacionais do Estado de SP. Professores também recebem qualificação constante, de acordo com a secretaria, para ensinar a esse público.

    A rede municipal atende 1.251 alunos surdos, dos quais 700 estão matriculados em seis escolas bilíngues espalhadas pela cidade e 227 em duas "unidades polo bilíngues". Outros 324 incluídos em classes comuns.

    Segundo a pasta, sua "politica de atendimento reconhece o direito dos surdos a uma educação bilíngue de qualidade que respeita sua identidade e cultura".

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