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    Brasil acima do peso

    MINHA HISTÓRIA

    'Perdi 47 kg após bariátrica, mas a luta ainda é diária', diz enfermeira

    DEPOIMENTO A
    GABRIEL ALVES
    DE SÃO PAULO

    17/08/2017 02h02

    A enfermeira Camila Rodrigues, 36, desde a adolescência, briga contra a obesidade. Ela havia tentado de tudo, dieta, exercícios, remédios.

    Depois de chegar aos 132 kg, em 2014, Camila decidiu que o melhor caminho era fazer a cirurgia bariátrica. A experiência foi traumática, mas hoje ela contabiliza 47 kg perdidos. Corrida e aulas de muay thai foram incorporadas na rotina e a dieta foi ajustada para sua nova fisiologia. Ela também toma um ansiolítico.

    Tudo para perder os 8 kg que faltam para a meta de 78 kg e, principalmente, não recuperar o peso perdido.

    *

    "Sempre fui uma criança gordinha. Minha família toda, aliás, é obesa. Fomos criados em um ambiente que a criança gordinha era considerada bonita, todas aquelas dobrinhas, sabe? E sempre comemos muito bem, a mesa era aquela fartura. Eu também era a gordinha da escola e também a mais gordinha entre os meus primos.

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    Não parei de ganhar peso na adolescência. Minha mãe e eu tentamos de tudo, nutricionista, endocrinologista. Tomei ansiolíticos, antidepressivos, inibidor de apetite, fitoterapia, fiz dieta e até perdi peso. A alegria durou dois anos –o quanto eu consegui manter. Depois engordei tudo de novo.

    Foi a pior fase da minha vida, quando realmente a obesidade começou a me incomodar. Você se sente excluído. Na aula de educação física as pessoas me escolhiam por último. Virava ponto de referência: 'perto daquela gordinha.'.

    Aos 23 anos, cheguei pela primeira vez ao ápice dos 130 kg. Outra fase terrível. Sentia dores nas pernas, cansaço. Não queria nem sair de casa –estava com depressão. Minha rotina era casa, faculdade, trabalho. Abri mão de ter vida social. Tinha vergonha de não ter roupa "adequada" para sair e estar junto de outras pessoas. Preferia ficar reclusa para evitar o constrangimento.

    Quando conheci meu marido, dez anos atrás, estava com 115 kg. Ele nunca se importou com o fato de eu ser obesa. O relacionamento sempre foi ótimo e ele sempre arrumava um jeito para eu não me sentir excluída das atividades, das amizades.

    Giovanni Bello/Folhapress
    A enfermeira emergencista Camila Rodrigues, 36, que perdeu 47 kg desde 2014
    A enfermeira emergencista Camila Rodrigues, 36, que perdeu 47 kg desde 2014

    Mesmo assim, tentava de tudo para emagrecer, até dieta à base de água e alface. Ao ponto de fazer ginástica o tempo todo e até a desmaiar por conta das dietas malucas, dos pontos, da lua. A vida era assim, um dia um pouco mais gordinha, um pouco menos no outro; remédio em um dia, dieta no outro.

    Mas não tinha jeito: minha alimentação, no fim, acabava voltando para aquela mais gostosa, regada a sal, gordura, batata frita, fast-food. Já cheguei a tomar sozinha dois litros de refrigerante no jantar. Era uma coisa que me satisfazia, me sentia bem e feliz com aquilo, como se eu pudesse descontar qualquer frustração.

    O problema foi a minha saúde, que começou a piorar. Quando estava com 132 kg apareceram outras doenças como esteatose [gordura no fígado], diabetes e hipertensão. Era a hora tomar alguma medida mais drástica.

    A preparação para a cirurgia bariátrica foi muito difícil e longa. Demora no mínimo um ano. Passei por cardiologista, nutricionista, endocrinologista e até psicólogos, além do cirurgião, claro. No meu caso, a cirurgia foi o bypass.

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    Logo depois da cirurgia, em 2014, foi dificílimo para voltar a comer. Quem pensa que a cirurgia faz milagre está muito enganado. Passei tanta fome... A cabeça pedia comida, mas o estômago simplesmente não aguentava. Eu chorei muito nas primeiras semanas, me perguntava por que tinha me submetido a isso.

    Hoje sei que todo o esforço, incluindo a bariátrica, só vale a pena se for para realizar uma vontade sua, e não algo para agradar à sua família, aos seus amigos ou aos vizinhos.

    Continuo sendo acompanhada por uma nutricionista e como de tudo, lanches, carnes etc. Mas em pequenas quantidades e mais vezes por dia. A vida de enfermeira emergencista é meio maluca: não tenho hora para comer nem hora certa para dormir. Levo marmita para evitar comer na rua.

    E, claro, tento comer menos porcaria, mas às vezes não resisto. A minha estratégia, quando estou em um lugar com vários doces diferentes, é tentar escolher só um para provar. Antigamente eu comeria um de cada ou até mais [risos].

    Comecei a fazer exercício físico por indicação médica. Primeiro veio a caminhada e depois a corrida, mas bem de leve e em baixa quantidade, porque ainda sentia muitas dores nas pernas. Depois comecei a musculação.

    Meu manequim foi do número 58 para o 44. Fico muito feliz quando olho no espelho e faço coisas que não fazia antes. Não tenho problemas em estar com os meus amigos: agora é só colocar uma calça jeans e camiseta que me sinto bem, não é mais um tormento. Meu marido gostou porque parei de chorar na hora de sair [risos].

    Uma coisa que me deixou chateada é que percebi que no trabalho as pessoas começaram a me tratar melhor depois da cirurgia. Por que tiveram de esperar eu emagrecer? Já havia sofrido bastante no meu emprego anterior, de secretária executiva. As pessoas me deixavam no cantinho da reunião, para aquela feinha não aparecer na foto...

    Atualmente estou fazendo muay thai e correndo regularmente. Ainda preciso emagrecer mais 8 kg para atingir o peso ideal de 78 kg. É, literalmente, uma luta diária.

    Também continuo tomando um ansiolítico que o médico passou. Segundo ele, depois de cinco anos de cirurgia a tendência é engordar –e não queremos que isso aconteça."

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