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    Cineasta Ettore Scola provoca público com o longa 'Feios, Sujos e Malvados'

    CÁSSIO STARLING CARLOS
    DE SÃO PAULO

    26/09/2015 02h00

    Divulgação
    Nino Manfredi no papel de Giacinto Mazzatella
    Nino Manfredi no papel de Giacinto Mazzatella

    Em nossos tempos hiperpoliticamente corretos, um filme como "Feios, Sujos e Malvados", realizado por Ettore Scola em 1976, dificilmente sairia do papel. Seu retrato de uma família amontoada num casebre numa favela de Roma desafia todas as normas e ainda acumula os "ismos" mais negativos: machista, racista, sexista, mostra que os pobres nascem ruins e morrem piores, todo mundo só pensa em comer o fígado do outro e não aparece nenhum personagem rico ou bem-sucedido para fazer papel de vilão.

    Nessa família que combina tragédia shakespeariana e comédia italiana, a penca de filhos, noras e netos sobrevive como sanguessuga do patriarca Giacinto Mazzatella e tem como única meta na vida eliminá-lo para pôr a mão no dinheiro que ele tem escondido.

    As crianças da comunidade são filmadas por meio de grades como se fossem animais selvagens trancados em jaulas. As mulheres são representadas como propriedades, abusadas sexualmente, exploradas e maltratadas por quaisquer motivos.

    Scola insere o filme na tradição italiana das histórias de famílias, com uma profusão de tipos exagerados, cada um representando o pior da espécie humana. Nenhum deles ganha função de vítima, nem mesmo o pai, que descreve a fauna como se vivesse num zoológico.

    Por que insistir tanto numa representação contrária ao que a maioria do público de ontem e hoje quer ver? Segundo Scola, "o cinema perde a função política particular quando sua mensagem é muito clara, muito ideológica. Vejo 'Feios, Sujos e Malvados' como uma forma particular de cinema político: a provocação".

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    Uma breve sequência de sonho revela que, lá como cá, sair da miséria e ascender implica entrar na sociedade de consumo, adquirir bens de última geração e viver com o pescoço enfiado na forca dos juros.

    Com essa fábula imoral, Scola atualiza a crítica que o poeta-cineasta Pier Paolo Pasolini vinha fazendo desde a década anterior à sociedade de consumo como a mais eficiente força corrosiva do caráter humano em todas as etapas históricas do capitalismo.

    FEIOS, SUJOS E MALVADOS
    DIRETOR: Ettore Scola
    DISTRIBUIDORA: Magnus Opus
    QUANTO: R$ 39,90
    AVALIAÇÃO: ótimo

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