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    Livro vencedor do Pulitzer narra pacto entre papa e Mussolini

    LUCAS FERRAZ
    DE SÃO PAULO

    23/05/2015 00h00

    O episódio é um dos mais fascinantes da história da Igreja Católica: um papa recém-eleito usa de sua influência para consolidar a figura de Benito Mussolini e seu programa fascista na Itália.

    O apoio, que se tornaria estratégico, é prontamente retribuído pelo "Duce". Eles chegam ao poder por uma diferença de meses, no mesmo ano de 1922.

    O pacto, que moldaria a política italiana –e por tabela influenciaria a Europa– por décadas, é ameaçado só em 1939, quando o papa, Pio 11, prepara dois documentos para denunciar a aliança de Mussolini com Hitler e a campanha racial e antissemita de ambos.

    Na véspera de ler um dos documentos, o imponderável: o pontífice morre. Seu substituto, Pio 12, acata a sugestão fascista e destrói a documentação deixada pelo antecessor.

    Foi recontando essa história, com foco nos dois protagonistas, o líder italiano e Pio 11, que o norte-americano David Kertzer foi agraciado neste ano com o prêmio Pulitzer de melhor biografia para "The Pope and Mussolini "" The Secret History of Pius XI and the Rise of Fascism in Europe" (o papa e Mussolini "" A história secreta de Pio 11 e a ascensão do fascismo na Europa).

    NO BRASIL

    Publicado nos EUA no ano passado, o livro será editado no Brasil no primeiro semestre do ano que vem pela editroa Intrínseca.

    "A Igreja reescreveu a sua história. A narrativa padrão do Vaticano sobre sua relação com o fascismo é enganosa", afirmou o autor em entrevista à Folha. "Sem o apoio da Igreja, o fascismo não teria durado tanto tempo na Itália".

    Professor de antropologia e de estudos italianos da Universidade de Brown (EUA), David Kertzer compôs sua obra a partir de documentos que começaram a ser liberados pelo Vaticano a partir de 2006, abrangendo o papado de Pio 11 (1922-39), e por uma vasta documentação que está no Arquivo dos Jesuítas, em Roma.

    "Mas não foi só a Igreja que reescreveu a sua história. A Itália esteve mais de 20 anos abraçada ao fascismo e, após a Segunda Guerra, descobriu que quase ninguém tinha sido fascista ou anti-semita."

    SANTO APOIO

    "O fascismo se estabeleceu na Itália graças ao apoio do Vaticano. E Hitler, nos anos 1920, se espelhou muito no seu herói Mussolini, cujo busto ele manteve por anos num lugar de destaque em seu escritório", diz Kertzer.

    Mussolini retribui o apoio restaurando os poderes que o Vaticano desfrutava na Itália antes da unificação do país, no século 19, e até financiou a reforma de igrejas.

    Para o autor, a Marcha sobre Roma, que marcou a chegada de Mussolini ao poder, foi uma revolução clérico-fascista. Os dois líderes tinham ainda em comum o desejo de afastar o fantasma do comunismo, que assombrava a Europa desde a revolução bolchevique de 1917.

    E se aqueles documentos tivessem sido divulgados por Pio 11 em 1939?

    "Poderiam diminuir ou até acabar com o entusiasmo dos italianos em torno da aliança feita por Mussolini com Hitler. Mas duvido que tivessem força para mudar o caminho que Hitler estava determinado a tomar", afirma.

    Kertzer agora espera que o Vaticano desclassifique os documentos relativos ao papado de Pio 12 (1939-58), chamado por muitos de "o papa de Hitler" por ter se mantido em silêncio durante o Holocausto. "Há uma esperança de que o papa Francisco libere esses documentos, mas por enquanto é só especulação", ressalta.

    THE POPE AND MUSSOLINI
    AUTOR David Kertzer
    EDITORA Random House
    QUANTO US$ 16 (importado)

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