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    Arquivo de Garcia Márquez tem resposta de Collor a carta do escritor

    CLÁUDIA SILVA
    COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM AUSTIN

    14/11/2015 02h05

    As quase cem caixas cinzas com arquivos de Gabriel García Márquez (1927-2014), abrigadas no centro de humanidades Harry Ransom Center, da Universidade do Texas em Austin, disponíveis para consulta acadêmica desde 21/10, têm como língua predominante o espanhol.

    No entanto, há documentos em inglês, francês, holandês, alemão, italiano, japonês, português e sueco. Essa diversidade linguística revela não só a rede internacional de amigos, políticos e contatos que García Márquez mantinha, mas também os seus anseios políticos e ideológicos.

    Em português, há uma carta e envelope que tem como remetente "Fernando Collor de Mello – Presidente da República Federativa do Brasil – Palácio do Planalto".

    Com data de 12/4/1990, a correspondência datilografada e assinada à mão pelo então presidente –e que não pode ser fotografada– está numa pasta catalogada como "Cartas de Pessoas Muito Importantes 1986-2001".

    Roberto Jaime/Folhapress
    Presidente Fernando Collor de Mello e o escritor Gabriel Garcia Marquez no Hotel Hilton, em Cartagena, na Colômbia.*** NÃO UTILIZAR SEM ANTES CHECAR CRÉDITO E LEGENDA***
    O então presidente Fernando Collor de Mello e o escritor Gabriel García Márquez em 1991

    Aí pode-se encontrar não só cartas escritas por nomes como Kofi Annan, Milan Kundera e Indira Gandhi, como também uma carta afetuosa com caligrafia infantil escrita por Hernan Dario García, sobrinho do prêmio Nobel colombiano, que chama ao escritor de "Tio Gabo".

    PRESIDENTES

    Já a carta de Collor, o único documento em português na tal pasta, consiste numa resposta a uma carta enviada por García Márquez. Contatado pela Folha, Collor, atual senador (PTB-AL), preferiu não comentar o assunto nem revelou o teor da mensagem que recebeu do colombiano.

    Na resposta que está no arquivo, o então presidente diz que "apreciou" considerações de Gabriel García Márquez a respeito do Brasil e América Latina. Collor escreveu: "Verifiquei com satisfação que suas palavras sobre o processo de integração latino-americana expressam um sentimento que compartilho e que estará presente na política externa do meu governo."

    Márquez parecia ter o hábito de escrever cartas a presidentes. Escreveu a George Bush pedindo a paz na Nicarágua e manteve intensa correspondência com Bill Clinton. Várias dessas cartas podem ser encontradas na caixa cinza, catalogada com o número 54.5, nas salas de leitura da universidade.

    Seth Garfield, professor do departamento de história da Universidade do Texas e especialista em história do Brasil, diz que a motivação de Márquez em enviar uma carta ao presidente do Brasil pode ter sido impulsionada pelo discurso de posse de Collor em 15/3/1990, que se referiu a "fórmulas novas de inserção" do Brasil no mundo e ao seu plano de política externa.

    FAMA POLÍTICA

    O presidente da Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-Americano (FNPI), Jaime Abello Banfi, sugere que o colombiano teria escrito a carta propondo algo muito concreto em relação à identidade cultural da região.

    "Em 1989, ele estava muito envolvido com a assinatura dos acordos de produção cinematográfica ibero-americana", lembra Banfi.

    O Brasil foi, de fato, um dos países que assinou o acordo em 1989, em Caracas, Venezuela, dando origem ao Convênio de Integração Cinematográfica Ibero-Americana.

    "Não me estranharia que a carta de García Márquez tenha sido em função do cinema para assegurar que o Brasil se comprometesse", diz Banfi, "porque ele era capaz de usar seu capital político e de sua fama para fazer projetos".

    Para Jason Borge, professor de literatura e cinema latino-americano da Universidade do Texas, o escritor colombiano era um personagem da cultura latino-americana que se tornou político em certo sentido.

    PODER

    O autor de "Amor nos Tempos do Cólera" e "Cem Anos de Solidão", vencedor do Nobel de Literatura em 1982, sabia que podia contatar presidentes, especialmente na América Latina.

    Era amigo de Fidel Castro, e também de Bill Clinton. "Ele tinha um acesso aos políticos do mundo de uma maneira especial; há poucos escritores com esse poder", diz Borge.

    O escritor, na opinião de Borge, tinha uma fascinação pelo poder que se revela não apenas pela carta que enviou ao presidente do Brasil ou às correspondências que trocou com presidentes dos Estados Unidos, mas também nos seus livros. "Ele sempre falava de poder", diz.

    No terceiro parágrafo, Collor termina a carta dizendo que gostaria de encontrar o escritor. Efetivamente, eles se encontraram no Hilton de Cartagena em outubro de 1991, e depois, em 1993, no mesmo lugar, com Collor já deposto.

    O que conversaram, entretanto, só Collor pode revelar.

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