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    Turquia bloqueia site de cartunista brasileiro após críticas a presidente

    DIOGO BERCITO
    EM MADRI

    29/01/2016 19h31 Erramos: esse conteúdo foi alterado

    Divulgação
    Latuff critica presidente turco, comparando seu governo ao de Hitler
    Crítica de Latuff a Erdogan, em que diz que o presidente turco cita Hitler como exemplo de bom governo

    O site do cartunista brasileiro Carlos Latuff, 47, esteve temporariamente bloqueado na Turquia devido a suas ilustrações críticas ao presidente turco Recep Tayyip Erdogan, segundo o próprio artista.

    Os acessos à página foram restritos dentro da Turquia em dezembro. Nesta semana, no entanto, já era possível visitar o endereço mesmo a partir de Istambul.

    Procurado pela reportagem, o governo turco não especificou as razões do bloqueio ou sua duração exata, confirmando apenas que houve um processo relacionado ao site desse artista.

    Latuff, 47, que mora em Porto Alegre, critica há anos o líder turco, que foi premiê entre 2003 e 2014. Em algumas das ilustrações, o presidente aparece amigado com os terroristas do Estado Islâmico. Em outras, dá as mãos ao governo israelense. Ademais, Erdogan é ilustrado ali como um aspirante a sultão.

    "Quando estive em Istambul, percebi que se trata de um Estado policial clássico, com partidos banidos, jornalistas presos, coisa de filme", afirma Latuff à Folha. "Mas Erdogan não está satisfeito. Ele busca mais poderes."

    Em dezembro, o artista diz ter sido notificado pelos administradores da plataforma WordPress, onde hospeda seu blog de charges, de que o acesso na Turquia estava bloqueado. "Já sofri diversas ações de censura, não chega a me surpreender", afirma.

    Quanto mais desenha, menos ele pressente que seu passaporte será carimbado. Latuff, por exemplo, é desafeto também em Israel, e foi considerado por uma organização judaica como um artista antissemita. Ele participou de um polêmico concurso de charges organizado no Irã com o tema "Holocausto".

    "Devido às minhas charges, entrar em países como Turquia, Egito, Israel ou Bahrein poderia me custar, no mínimo, uma extradição", afirma à reportagem. "O mundo atualmente não é um lugar seguro para chargistas que têm algo a dizer para além da piadinha fácil."

    O desafeto de governos não é compartilhado, porém, por seus seguidores. Latuff tornou-se, nos últimos anos, um dos artistas-símbolo da Primavera Árabe, a despeito da distância geográfica. Suas ilustrações estiveram em cartazes durante manifestações.

    No Egito, por exemplo, o brasileiro é lembrado por sua ilustração de um homem que escalou a embaixada israelense -conhecido ali como "Homem-Aranha Egípcio".

    De toda maneira, a proibição na Turquia podia ser facilmente driblada pelo uso de aplicativos comuns no país, utilizados também para burlar a censura na hora de acessar conteúdos pornográficos. "Quanto mais se tenta impedir o acesso às minhas charges, mais elas têm a procura dos internautas", diz.

    Desenhando de longe, Latuff não corre o risco dos artistas locais, submetidos a duras medidas. "Posso fazer as charges que o público turco quer ver, mas que os cartunistas de lá não podem fazer", diz à reportagem.

    No Brasil, porém, o artista afirma ter menos garantias devido a suas ilustrações da Polícia. "Já fui alvo de detenções e de censura também", diz. "A Polícia foi alçada a condição de ente sagrado, intocável, que não se pode criticar. Mas, mesmo assim, eu continuo desenhando."

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