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    Audiovisual do Brasil é sexista, diz pesquisa de ONG de Geena Davis

    GABRIELA SÁ PESSOA
    DE SÃO PAULO

    08/03/2016 02h37

    Geena Davis, 60, quer um mundo em que as mulheres sejam cada vez mais como Thelma, sua personagem no filme "Thelma & Louise" (1991). À frente da instituição que leva seu nome, ela milita há 25 anos para que a indústria do entretenimento priorize histórias como a de sua personagem mais famosa, uma dona de casa transgressora que abandona a monotonia do lar e cai na estrada.

    Nesta terça (8), a ONG chega ao Brasil: executivas do Instituto Geena Davis se reunirão com o mercado durante a semana para apresentar um trabalho inédito sobre a percepção das desigualdades de gênero na mídia nacional.

    Divulgação
    Cinema: as atrizes Geena Davis e Susan Sarandon, em cena do filme "Thelma & Louise". (Foto: Divulgação) ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
    Geena Davis (dir.) e Susan Sarandon, em cena do filme "Thelma & Louise"

    O objetivo é evidenciar o abismo entre as conquistas das brasileiras na sociedade (no comando de 37% dos lares, segundo o IBGE) e o modo como a TV e o cinema as representam: para 70% dos entrevistados, ainda em papéis tradicionais (esposa, dona de casa) e hipersexualizados.

    Os dados integram uma pesquisa encomendada pela ONG ao instituto de pesquisas americano Gallup, em parceria com a Uerj (Universidade do Estado do RJ). Foram 2.000 entrevistas nas principais regiões metropolitanas do país, em dezembro de 2015.

    Por telefone, Geena explica que o Brasil é um dos nove países observados por sua instituição – China, África do Sul, Reino Unido e França também–, por constituir um dos principais mercados de entretenimento no mundo.
    "Queremos melhorar o status que uma mulher pode ter globalmente. Uma boa maneira é mostrar garotas realizando coisas importantes, vivendo aventuras, protagonizando histórias e tomando seu espaço no mundo", conta a intérprete de Thelma.

    A atriz será representada por Madeline Di Nonno, diretor do instituto, e Deborah Calla, roteirista brasileira radicada nos EUA e conselheira da ONG. O trabalho será semelhante ao de Hollywood: mostrar a produtores dados sobre como o entretenimento reforça preconceitos (veja ao lado).

    "A reação mais comum é as pessoas ficarem chocadas. Todo mundo inconscientemente reproduz preconceitos de gênero, parece normal até que alguém chame a atenção para isso", comenta Geena.

    Para ela, o melhor exemplo recente de como as discussões sobre gênero têm impactado a indústria é o último "Star Wars" –com Rey (Daisy Ridley) entre os protagonistas, o longa se tornou a terceira maior bilheteria da história e provou que é possível conquistar o público de aventura com uma mulher em um papel de destaque.

    Elena Dorfman/Lucasfilm
    Star Wars: The Force Awakens Rey (Daisy Ridley) Ph: Elena Dorfman © 2015 Lucasfilm Ltd. & TM. All Right Reserved.. ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
    A heroína Rey (Daisy Ridley), de "Star Wars - O Despertar da Força"

    Por aqui, as executivas terão muito o que conversar. Em novembro, um levantamento da Folha apontou que, em 20 anos, mulheres dirigiram só 16,5% dos filmes.

    Em dezembro, uma petição on-line reuniu 30 mil assinaturas pedindo a retirada do "Pânico" (Band) do ar, após um repórter lamber uma entrevistada. O programa, que costuma marcar 5 pontos no Ibope da Grande São Paulo (cada ponto equivale a 69 mil domicílios), exibe quadros em que o elenco feminino (as "Panicats") escorrega, de biquíni e em câmera lenta, em uma lona com água e sabão.

    Mas há também bons exemplos no ar. A novela das 21h "A Regra do Jogo" (Globo) termina na sexta (11) tendo exibido histórias como a da dona de casa Domingas (Maeve Jinkins), que superou uma situação de violência doméstica.

    Apesar de protagonizado por um homem, o ator Alexandre Nero, o folhetim de João Emanuel Carneiro mostrou mulheres complexas e poderosas, como a estelionatária Atena (Giovanna Antonelli) e a ex-prostituta Adisabeba (Suzana Vieira), a "dona do morro" da Macaca, onde se passa parte da trama.

    "As novelas se entregam muito fácil ao lugar-comum", comenta o autor, que planeja uma próxima trama "bem feminina": "A mulher é o coração e a emoção da novela".

    Editoria de arte/Folhapress
    FAZENDO GÊNEROComo a TV e o cinema representam as mulheres
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