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    Crítica

    Sem eixo central, 'Conexão Escobar' evita clichês irritantes

    INÁCIO ARAUJO
    CRÍTICO DA FOLHA

    15/09/2016 02h11

    Estamos nos anos 1980 do século passado. Os colombianos, com Pablo Escobar à frente, dominam o mercado da cocaína e similares, enquanto o governo Reagan dedica-se obsessivamente a desbaratar esse outro império do mal. O agente Robert Mazur (Bryan Cranston) se faz passar por traficante para infiltrar-se na gangue.

    Ninguém dirá que é desprezível a aventura de Mazur, a começar pelo fato de que "Conexão Escobar" é baseado nas memórias do próprio agente sobre o acontecido naquele momento.

    E o que acontece não é pouco. Mazur toma a identidade de um grande especialista em lavagem de dinheiro e, pouco a pouco, vai se aproximando dos maiorais da gangue.

    A ação não envolve apenas esses maiorais, e talvez daí venha o melhor: vai desde o envolvimento do agente Emir (John Leguizamo), passando pela cooptação de presidiários, até o envolvimento de banqueiros internacionais tão poderosos como inescrupulosos.

    Claro, não é apenas isso: à medida que se aproxima de Pablo Escobar e de outros maiorais da gangue, o perigo se torna mais intenso.

    Mas os piores riscos são sofridos pela família, claro: risco de retaliação pelos traficantes, por exemplo. Esse não é o maior, no entanto.

    Risco mesmo é sua companheira de trabalho, a bela Kathy (Diane Kruger). A mulher de Mazur sofrerá também ao entrar em contato com a suposta noiva do agente.

    Para resumir, assunto é o que não falta.

    Diante disso, o pior perigo para uma boa mise-en-scène é a dificuldade de escolher o eixo central de sua narrativa. É nesta armadilha que cai Brad Furman, diretor do filme e bom diretor de atores.

    Entre todos os pontos a desenvolver, o filme desenvolve todos. Com isso, cria um filme de ação incessante, com momentos muito raros de distensão, o que produz o desequilíbrio do conjunto.

    Vejamos alguns pontos que poderiam ser centrais: a fatuidade da política de repressão a drogas (verificável com facilidade nos dias que correm); as motivações de Mazur para se meter em tais e tantos perigos, quando já poderia estar aposentado (poderiam variar de idealismo a gosto pela aventura, ou a proximidade da bela garota com quem forma dupla).

    CORRIDA À CEGAS

    À falta de uma linha forte temos aí um filme que avança quase cegamente ao longo de uma ação não desprovida de interesse. No fim, à parte a boa direção de atores, destaque-se a habilidade em evitar certos clichês irritantes (tipo traficantes que não param de cheirar, ambientes e trajes de mau gosto exagerado) desse tipo de filme.

    Em resumidas contas: dá para ver "Conexão" e, mais ainda, para esquecer.

    CONEXÃO ESCOBAR (The Infiltrator)
    DIREÇÃO Brad Furman
    ELENCO Bryan Cranston, John Leguizamo, Diane Kruger
    PRODUÇÃO EUA, 2016, 14 anos
    QUANDO: Estreia nesta quinta (15)

    Edição impressa

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