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    Fechado por 20 anos, hotel projetado por Oscar Niemeyer é reaberto no Rio

    RAUL JUSTE LORES
    ENVIADO ESPECIAL AO RIO

    19/12/2016 02h06

    Se o verdadeiro luxo está na localização, o renascido Hotel Nacional é nababesco. Colado ao morro Dois Irmãos, com vista desimpedida para a Pedra da Gávea, está a passos da praia de São Conrado, no Rio. Para quem está no topo do cilindro de 33 andares, inaugurado em 1972, até o Cristo Redentor comparece.

    Já o arquiteto Oscar Niemeyer e o empresário José Tjurs viam espaço como privilégio para o então mais alto hotel do país, em um terreno de 15 mil m². O saguão, sem colunas, com vista para o mar, tem 3.000 m². Os jardins de Burle Marx, 2.500 m². "Ninguém mais constrói algo tão amplo e generoso", diz Rui Manuel Oliveira, vice-presidente da rede Meliá no Brasil, que vai operar o recém-reaberto cinco estrelas.

    Os últimos hóspedes tinham feito seu check-out em 1995. À época, o hotel pertencia ao banqueiro Artur Falk, da corretora Interunion, acusado de fraudes com os títulos de capitalização Papa-Tudo.

    O hotel faliu e o negócio sofreu intervenção federal. Por quase 20 anos, virou uma carcaça imponente. Obras de arte foram furtadas, o mobiliário modernista foi leiloado e virou um mico imobiliário.

    Em 2009, um grupo capitaneado pelo empresário goiano Marcelo Limirio Gonçalves, ex-dono do laboratório Neoquímica e sócio da Hypermarcas, arrematou a torre por R$ 85 milhões.

    Depois vieram a associação com a rede espanhola Meliá e um longo processo com o órgão de preservação do patrimônio histórico do Rio, o IRPH, que permitiu pouquíssimas alterações ao projeto original. Encontrar fornecedores para repor as peças que já não existem mais no mercado também desacelerou a recuperação da obra, que estava prevista para a Olimpíada. A conta total ficou em R$ 420 milhões.

    A Folha visitou o hotel em seu primeiro dia de funcionamento, na quinta (15), dia do aniversário de Niemeyer, ainda em regime de soft opening –um ensaio que durará um mês, com 60 quartos já prontos. Em 15 de janeiro, espera-se que os 413 quartos estejam operando. Um restaurante, um bar e um spa devem ser abertos até fevereiro. O centro de convenções, meses depois.

    O espaço da antiga boate Mykonos, no subsolo, será transformado em adega para degustações de vinhos. O antigo teatro, com pé direito baixo e acústica complicada, será incorporado ao centro de convenções. Ambos foram considerados inseguros sob a legislação atual –e Niemeyer não deixava que detalhes de funcionalidade prejudicassem o efeito de suas obras.

    A torre cilíndrica de fachada única permitiu vistas para todos os quartos, já que os equipamentos do Hotel Nacional, como os elevadores, ficaram confinados no centro da construção. Mas os apartamentos, como fatias de pizza, não facilitam a vida de quem quer decorá-los.

    Provavelmente Niemeyer não queria nenhuma mesa ou cama obstruindo o panorama lá fora, com vidro do chão ao teto nos quartos.

    Vários deles estão virados para o morro da Rocinha. O hotel fez um acordo para patrocinar estudantes de hotelaria da comunidade. Dos 300 funcionários do rebatizado Gran Meliá Nacional, 100 moram naquele morro.

    O imenso saguão era todo aberto para a piscina e o mar. Niemeyer queria um sabor praiano na entrada. Mas chuvas e areia espalhada atingiam o lobby, que foi envidraçado na reforma (com a inclusão de ar condicionado).

    Ali, voltaram em boa forma as 270 placas de concreto que formam o mural de 45 metros desenhado pelo artista argentino-baiano Carybé.

    O garimpo para encontrar obras furtadas continuou. A sereia esculpida por Alfredo Ceschiatti, o mesmo autor dos anjos da Catedral de Brasília, foi parar em Botafogo, mais provável que por terra. Voltou para ser destaque na fachada.

    A união entre arquitetos e artistas de disciplinas variadas para fazer uma arquitetura total era comum ao modernismo professado por Niemeyer e já bem conhecido pelo hoteleiro José Tjurs.

    Nascido na Argentina, filho de imigrantes judeus russos, Tjurs começou como assistente de taxista no Rio dos anos 1910, teve cabaré e virou o principal empresário hoteleiro de São Paulo nos anos 1940 e 1950. Foi aí que se acostumou a trabalhar com os melhores arquitetos da época. Chamou Rino Levi para fazer o Excelsior, trabalhou com a dupla Jacques Pilon e Franz Heep em seu Hotel Jaraguá e contratou David Libeskind para projetar o Conjunto Nacional.

    Niemeyer já tinha feito alguns poucos hotéis em Brasília, Ouro Preto e na Ilha da Madeira quando projetou o Nacional em 1968. Era uma fase de muito trabalho para o arquiteto.

    Ao mesmo tempo, desenhava o Estádio Médici, em Recife (nunca construído), e muitas encomendas em Brasília, como o Quartel-General do Exército e as sedes dos Ministérios da Marinha e da Aeronáutica, o aeroporto e a ponte Costa e Silva. O vidro fumê da fachada seria um prenúncio para a fase pós-moderna (e menos inspirada) de Niemeyer, nos anos 1970 e 1980.

    Originalmente, o hotel teria 55 andares e duas torres residenciais, nunca construídas. A inflação dos anos 1970 e a dificuldade da indústria turística engrenar reduziu para os atuais 33 andares.

    O empreendimento foi financiado com a venda de títulos, como seu antecessor (e também cilíndrico) Hilton, de São Paulo, aberto em 1971.

    O jornalista viajou a convite do Grupo Meliá

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