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    Retrospectiva celebra os cem anos da mostra mais radical de Anita Malfatti

    SILAS MARTÍ
    DE SÃO PAULO

    06/02/2017 02h00

    Entre casinhas de telhado cor-de-rosa, o farol que Anita Malfatti pintou lança um jato de luz amarelo ovo sobre uma paisagem tortuosa. Arbustos verde musgo lembram nuvens de algodão caídas do céu, enquanto o alto da tela parece um campo arado, suas listras cavadas pela fúria dos ventos.

    Quando mostrou esse quadro há cem anos na primeira exposição de arte moderna no país, a artista tentava deslocar os holofotes para um novo momento estético, distante de representações fiéis à realidade.

    Mas, na versão dos fatos que se cristalizou na história, esse futuro iluminado por "O Farol" teria mergulhado em trevas depois de uma crítica impiedosa de Monteiro Lobato.

    Divulgação
    Estudo para 'A Boba', obra de Anita Malfatti concluída em 1916 e agora no MAM
    Estudo para 'A Boba', obra de Anita Malfatti concluída em 1916 e agora no MAM

    O autor de "Ideias de Jeca Tatu" acusou Malfatti de entrar "nos domínios dum impressionismo discutibilíssimo" e pôr seu talento "a serviço duma nova espécie de caricatura", rendida que estava à "sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas como furúnculos da cultura excessiva".

    Malfatti, na visão de Lobato, arriscava ser mais uma "estrela cadente", dessas que "brilham um instante, as mais das vezes com a luz de escândalo" para depois se perder "nas trevas do esquecimento".

    Ele estava errado. Mas seu ataque a uma artista ainda vista como moça frágil, imagem reforçada pela deformação que ela tinha na mão direita, virou o maior argumento dos modernistas da época nas tentativas de explicar por que, pouco depois da reviravolta de 1917, Malfatti passaria a ser menos radical, adotando estilos mais convencionais.

    Divulgação
    Nu Masculino com Bastão I', obra de Anita Malfatti realizada em 1917 e agora no MAM
    'Nu Masculino com Bastão I', obra de Anita Malfatti realizada em 1917 e agora no MAM

    Um século depois desse episódio divisor de águas na história da artista, o Museu de Arte Moderna abre agora uma grande retrospectiva calcada em reverter essa visão de Malfatti como uma espécie de mártir do modernismo.

    "Ela estava longe de ser essa coitadinha", diz Regina Teixeira de Barros, que organiza a mostra. "Ela era mais introvertida, não era socialite como a Tarsila nem fazia seus modelitos nos melhores costureiros. Mas essa mulher que falava alemão, inglês e francês e foi viver sozinha em Berlim, Nova York e Paris não tem cara de desestruturada. Ela ficava na dela, mas era intensa."

    Essa intensidade, no caso, não está só nas cores lisérgicas e na ilusão de movimento que deu aos rostos e músculos de seus retratados na fase expressionista -seis das obras da mostra de 1917 reunidas no MAM, entre elas "O Farol" e "Estudante Russa", deixam claro, aliás, o quanto de Munch, Matisse, Cézanne e outros mestres Malfatti absorveu e retrabalhou nesse seu momento mais radical.

    Os pouco vistos -e espetaculares- nus masculinos dessa mesma fase também mostram uma artista em plena forma, segura dos passos que dava na construção de sua obra.

    Mas é outra tela que serve de âncora para entender essa Malfatti pós-1917. "Tropical", uma das pinturas menos lembradas da mostra histórica, retrata uma mulata rodeada de frutas no estilo naturalista então em voga, que servia à construção do imaginário plástico de uma identidade nacional.

    Na visão de Teixeira de Barros e do crítico Tadeu Chiarelli, essa tela, também escalada para a exposição atual, seria uma prova de que o chamado retorno à ordem da artista tinha raízes bem mais profundas que sua reação imediata à crítica de Monteiro Lobato.

    DA LUXÚRIA À CONTENÇÃO
    Malfatti, nesse sentido, estaria à frente de seu tempo por questionar desde o início até que ponto deveria ir sua adesão às vanguardas que acabava de ver em pleno vigor em Berlim e Nova York.

    Ou seja, não era ingênuo nem deslumbrado o seu mergulho na modernidade mais estonteante. Na raiz de sua radicalidade já estava, nas palavras de Chiarelli, um "refluxo em relação às vanguardas".

    E esse refluxo foi da luxúria à contenção formal. Na década de 1920, quando viveu em Paris, Malfatti parece ter se deixado seduzir ainda mais pela intensidade das cores e por detalhes vistosos de interiores burgueses, fundindo temas caros a Manet, do clássico "Olympia", ao apreço pelas superfícies felpudas, berrantes, coloridíssimas de Gauguin, Vuillard e Bonnard.

    Na mesma época, Malfatti também criou obras que são o avesso dessa explosão de cores, como as aquarelas em que retrata paisagens de Veneza, Mônaco e Nápoles.

    Seu retorno a São Paulo, talvez o momento mais desprezado de sua história, foi marcado por visões de festas populares e viagens de fim de semana ao mar e aos arredores da metrópole em formação.

    Mais perto do fim da vida, dos anos 1950 até sua morte em 1964, esses registros singelos ganharam traços naïf, em sintonia com nomes de fora do establishment, entre eles José Antônio da Silva.

    "É uma outra Anita, mais delicada, suave, tanto nos tons quanto nas pinceladas", diz Teixeira de Barros. "Essas pinturas não foram compreendidas pelos contemporâneos dela, mas mesmo nesse retorno à ordem existe um radicalismo. Ela é uma grande pintora, que nunca se acomodou."

    ANITA MALFATTI
    QUANDO abre nesta terça (7), às 20h; de ter. a dom., das 10h às 17h30; até 30/4
    ONDE MAM, pq. Ibirapuera, portão 3, tel. (11) 5085-1300
    QUANTO R$ 6

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