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    ANÁLISE

    Pavilhão do Brasil na Bienal de Veneza evoca nação fracassada

    SILAS MARTÍ
    ENVIADO ESPECIAL A VENEZA

    16/05/2017 02h05

    Lembra uma sala vazia. À primeira vista, o pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza é um cubo branco virado do avesso, atravessado de fora a fora por um piso metálico inclinado, que força o espectador a se curvar sob a viga de concreto que sustenta o prédio. Lá no fundo, mais uma grade filtra a visão do horizonte.

    Cinthia Marcelle, artista que representa o Brasil e venceu uma menção honrosa por seu trabalho na mostra italiana, transformou a arquitetura modernista de Giancarlo Palanti e Henrique Mindlin nos Giardini numa espécie de presídio acinzentado.

    Limpeza e austeridade se rebelam para emoldurar um espaço instável, de choque e tortura. Nos vãos das grades no chão, as mesmas pedras brancas que cobrem o lado de fora do prédio estão enfiadas à força, um elemento orgânico que distorce a matriz geométrica da arquitetura moderna.

    Divulgação
    Instalação da artista Cinthia Marcelle no pavilhão do Brasil, na Bienal de Veneza
    Instalação da artista Cinthia Marcelle no pavilhão do Brasil, na Bienal de Veneza

    Marcelle evoca todo o repertório do neoconcretismo ao provocar um embate do corpo com a suposta neutralidade de uma arte criada num contexto urbano e industrializado, com a diferença de que a liberdade do corpo dionisíaco de Lygia Clark, Lygia Pape e Hélio Oiticica aqui passa pelo prisma de uma violência atualíssima.

    Ela, que diz ter pensado o pavilhão como um "terreno baldio, onde tudo pode acontecer sem recalques morais, sem culpas", de fato, está em sintonia com o pensamento de Oiticica e dos situacionistas que inspiraram o artista.

    Mas sua instalação atinge outra frequência ao se tornar uma alegoria ou espelho torto do Brasil da ameaça aos direitos sociais, de rebeliões nos presídios e massacres de índios.

    Divulgação
    Instalação da artista Cinthia Marcelle no pavilhão do Brasil, na Bienal de Veneza
    Instalação da artista Cinthia Marcelle no pavilhão do Brasil, na Bienal de Veneza

    Bandeiras brancas, na verdade tecidos de listras pretas apagadas pela artista, tremulam em sarrafos fincados no chão, ecoando a imagem de homens acampados num telhado que surge num vídeo, também no pavilhão, algo entre um naufrágio e uma rebelião.

    Das mais fortes representações do Brasil em Veneza na última década, a obra de Marcelle é um retrato contundente e sutil do caos que domina o país, uma constante tão fincada na nossa memória quanto a potência do neoconcretismo.

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