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    Crítica

    Obra de Apollinaire calcada em Sade termina por traí-lo

    SÉRGIO RODRIGUES
    COLUNISTA DA FOLHA

    18/05/2017 02h30

    AS ONZE MIL VARAS (regular) Apollinaire
    TRADUÇÃO Letícia Coura
    EDITORA Iluminuras
    QUANTO R$ 42 (144 págs.)

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    Em 1907, antes de se consagrar como poeta e uma das vozes mais importantes do modernismo literário francês, Guillaume Apollinaire (1880-1918) publicou sem assinatura uma narrativa erótica chamada "As Onze Mil Varas", proibida na França até 1970 e que ganha agora nova edição no Brasil.

    Personagem da boêmia parisiense, Apollinaire era divulgador e admirador do marquês de Sade, o devasso de fins do século 18 que a intelectualidade francesa iniciava então a revalorizar intensamente. Em espírito de brincadeira, produziu uma novela pornográfica que, calcada no papa da literatura libertina, termina por traí-lo.

    "As Onze Mil Varas" acompanha as aventuras de um autoproclamado príncipe de fajuta nobreza, o romeno Mony Vibescu, que viaja pela Europa colecionando parceiros sexuais de ambos os sexos e todas as idades.

    Vibescu é tão insaciável quanto flexível. Sodomiza e é sodomizado com a mesma desenvoltura. Curte S&M, coprofilia, pedofilia –inclusive com um bebê– e assassinato. Todos os personagens com os quais cruza (o duplo sentido é bem-vindo) têm inclinações semelhantes. A maioria dos encontros carnais, mesmo os que acabam em morte, é consensual.

    Antecipando clichês da pornografia audiovisual que mal raiava no horizonte, o narrador tem pressa. Nenhum personagem vai além da garatuja e nenhum tempo é perdido com "clima".

    O tom de farsa é intencional, mas o tédio que emana do enfileiramento de atos de violência sexual –efeito que também assombra Sade– é um problema literário, por produzir no leitor um entorpecimento que vai na contramão tanto da excitação quanto do escândalo e do xeque-mate moral pretendidos.

    No caso de Apollinaire, esse problema é atenuado pelo humor. O livro tem um jeitão de chanchada que dispensa por completo as digressões filosóficas do marquês e passa longe de sua, digamos, severidade libertino-libertária.

    Isso se evidencia já no título, que no original brinca com a semelhança entre as palavras "verges" (varas) e "vierges" (virgens). Uma solução menos traidora em nossa língua seria "vergas", adotada em Portugal. Mas "As Onze Mil Varas" é o título consagrado nas edições brasileiras.

    A alma brincalhona da novela termina por limitar sua potência transgressiva. Sem "páthos", a narrativa torna-se uma gincana de bizarrices que aspira a uma vitória quantitativa que não vem.

    As Onze Mil Varas
    Guillaume Apollinaire
    l
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    Dez anos após a morte de Apollinaire e com ingredientes semelhantes, Georges Bataille daria à literatura erótica francesa um livro muito mais profundo e perturbador, com personagens de verdade –"História do Olho".

    Como peça de humor negro, "As Onze Mil Varas" consegue, nos melhores momentos, divertir vagamente. Tem adeptos, como provam suas sucessivas reedições, mas é pouco mais que uma curiosidade biobibliográfica na carreira do poeta de "Álcoois".

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