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    Cineasta investiga em obras Rondon, butô e poeta que inspirou João Cabral

    NAIEF HADDAD
    DE SÃO PAULO

    09/06/2017 02h15

    Qual ligação pode haver entre a expedição pela Amazônia do marechal Rondon e de Theodore Roosevelt, então ex-presidente dos EUA, e a construção de um casarão por um arquiteto japonês em Mogi das Cruzes (SP)? De que modo esses dois episódios estão ligados à vida do poeta pernambucano Joaquim Cardoso, grande inspiração de João Cabral de Melo Neto?

    A resposta para essas questões está no trabalho do cineasta carioca Joel Pizzini, 57.

    As três histórias se concentram na primeira metade do século 20. "Essa relação com a memória está no meu sangue", diz o diretor, que se notabilizou por filmes como "500 Almas", vencedor do Festival de Brasília de 2004, e "Olho Nu" (2012), documentário sobre o cantor Ney Matogrosso.

    Dos três projetos, o mais ambicioso é "Rio da Dúvida", que recria a expedição científica conduzida por Cândido Rondon (1865-1958) nos anos de 1913 e 1914. Com o sertanista e militar brasileiro, estavam Roosevelt, que havia sido o principal mandatário dos EUA entre 1901 e 1909, e uma equipe de apoio. Todos buscavam a foz de um rio na Amazônia, o rio da Dúvida.

    "Havia um choque de culturas", conta Pizzini. "Durante a viagem, ocorreu um assassinato. Roosevelt queria fuzilar o criminoso, mas Rondon impediu. Disse que não existia pena de morte no Brasil."

    O cineasta se refere ao longa-metragem "Rio da Dúvida" como um "documentário de invenção". Para Pizzini, trata-se de "uma modalidade de filme que valoriza a subjetividade, a recriação da história e a ressignificação dos materiais de arquivo".

    Imagens inéditas da expedição, obtidas em instituições como a Biblioteca do Congresso dos EUA, em Washington, e o Museu do Índio, no Rio, poderão ser vistas ao longo do filme em alternância com passagens em que atores encenam momentos da viagem.

    "Rondon é um personagem muito maior do que a imagem oficial que temos dele. Os índios tinham muito respeito por Rondon", lembra Pizzini.

    "Era militar e pacifista ao mesmo tempo. Carlos Drummond de Andrade o chamava de 'o militar suave'." Com previsão de conclusão no final deste ano, "Rio da Dúvida" deve ser lançado em 2018.

    POESIA E DANÇA

    Em outro projeto, ainda em fase inicial, Pizzini também vai ao começo do século 20, mas o cenário é Pernambuco. O longa "Depois do Trem" retratará o poeta e engenheiro civil Joaquim Cardoso (1897""1978), nascido em Olinda.

    "Nos livros de João Cabral, meu poeta de cabeceira, sempre lia dedicatórias a Cardoso. Ao pesquisar sua vida, decidi fazer o filme", diz o diretor.

    Em meio à preparação de "Depois do Trem" e à conclusão de "O Rio da Dúvida", Pizzini levará aos festivais brasileiros o curta "Elogio da Sombra". Espécie de ensaio visual, com diálogo entre cinema e pintura, o filme acompanha os movimentos da dançarina de butô Emilie Sugai em meio às ruínas do Casarão do Chá, obra relevante da arquitetura nipo-brasileira, erguida em Mogi das Cruzes, em 1942.

    As filmagens foram realizadas há mais de 15 anos, mas ficaram maturando na gaveta do cineasta, até o arremate no início deste ano. Nos anos seguintes às filmagens, o casarão acabou passando por uma restauração.

    Em sua primeira exibição, em maio, no Festival de Curtas de Oberhausen, na Alemanha, "Elogio da Sombra" foi bem recebido pelo público.

    Ricardo Borges/Folhapress
    Cineasta carioca Joel Pizzini
    Cineasta carioca Joel Pizzini
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