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    CRÍTICA

    Piadas de Clarice Falcão padecem de falta de criatividade

    ANDRÉ BARCINSKI
    CRÍTICO DA FOLHA

    15/08/2017 02h00 - Atualizado às 16h56

    Divulgação
    A atriz, música e comediante Clarice Falcão no 'Especial de Ano Todo', da Netflix
    A atriz, cantora e comediante Clarice Falcão no 'Especial de Ano Todo', da Netflix

    Logo na abertura de "Especial de Ano Todo", disponível na Netflix, a cantora e atriz Clarice Falcão faz um apelo aos telespectadores: "Se você se esforçar, vai conseguir gostar de mim".

    É um pedido um tanto inútil. Porque gostar da apresentadora não é a questão, a questão é achar alguma graça no programa dela.

    "Especial de Ano Todo" mistura show de "stand up comedy" com musical. A coisa até funciona em algumas músicas, mas empaca quando Clarice Falcão, sozinha com o texto, precisa comandar a atenção da plateia. A atriz não demonstra segurança, carisma e talento cômico para fazer rir.

    O show traz uma música para cada mês do ano, e as apresentações são intercaladas com quadros cômicos.

    A quantidade de clichês impressiona: em pouco menos de uma hora, Clarice usa e abusa de artifícios como esculhambar a produção do próprio show (uma atriz interpreta a produtora incompetente e aparece no palco a cada gafe da produção), fazer piadas com atores interpretando gente da plateia e cantar letras chulas sobre músicas de sonoridade quase infantil.

    Você já viu isso antes –e muito mais bem feito (só para citar dois exemplos que muitos devem conhecer: David Letterman e as piadas com o staff de seu próprio programa, e o Monty Python cantando "Sempre veja o lado bom da vida" enquanto seus integrantes são crucificados).

    Impressiona também a falta de ritmo do show. Os números musicais e esquetes são divididos pelos meses do ano, mas não têm ligação entre eles, o que atrapalha a fluência do programa e faz com que os quadros se sucedam aos pulos. O resultado é um programa sem história e, portanto, sem clímax.

    O texto também deixa a desejar. Se algumas músicas têm letras engraçadas (uma paródia ao clássico "Águas de Março" com "é pau, é pedra, é o fim do caminho" substituído por "pau, médio, enrugadinho" funciona bem), a maior parte das piadas é de uma falta de criatividade exasperante. Numa, o Carnaval é descrito como uma festa de muitas tradições: "o frevo, o maracatu, e o xixi na rua"; em outra, uma moça da plateia é questionada sobre preferir "comer o cocô do namorado ou beber o xixi de um desconhecido".

    A cena final define bem o programa: Clarice sobe ao palco, contempla o teatro vazio, vira as costas e vai embora. Existe algum encerramento de show de humor mais sem graça e anticlimático?

    ESPECIAL DE ANO TODO ruim
    ONDE Netflix

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