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    Música brasileira foi simplificada ao longo das décadas, diz pesquisa

    AMANDA NOGUEIRA
    DE SÃO PAULO

    16/08/2017 02h00

    Ricardo Borges/Folhapress
    A obra de Chico Buarque foi considerada a mais complexa pelo ranking decorrente da pesquisa
    A obra de Chico Buarque foi considerada a mais complexa pelo ranking decorrente da pesquisa

    A música brasileira foi simplificada ao longo das últimas décadas, aponta uma pesquisa divulgada pelo cientista de dados pernambucano Leonardo Sales em junho deste ano.

    A Análise da Música Brasileira baseou-se em dois aspectos centrais: os acordes utilizados nas composições e o vocabulário das letras. Para isso, o pesquisador rastreou 44 mil cifras e 102 mil letras disponibilizadas em sites como cifras.com.br e letras.com.br.

    A partir do compilado, Sales conseguiu identificar características da atuação de artistas como Lenine, campeão na utilização de acordes [conjunto de notas] raros, e grupos como a Facção Central, cujas letras abordam as temáticas mais específicas ou regionalizadas do estudo.

    Essas particularidades –como tamanho e raridade dos acordes ou diversidade e especificidade do vocabulário– são destrinchadas em quatro capítulos no blog do autor (leosalesblog.wordpress.com ), criado com o intuito de aplicar análise de dados a temas de interesse geral.

    O principal desdobramento a que chega o estudo é um ranking que elenca os artistas brasileiros pela complexidade de suas obras. Nele, Chico Buarque reina soberano, à frente de Djavan e Ivan Lins.

    Editoria de Arte/Folhapress
    Análise da música 1

    MISTURAS IMPROVÁVEIS

    Em um dos capítulos, Sales propõe novas configurações de gêneros musicais definidos pela semelhança entre a escolha por acordes e entre os vocabulários dos artistas.

    O primeiro grupo traz certa comicidade ao mesclar, por exemplo, Legião Urbana e Engenheiros do Havaí com Asa de Águia e Babado Novo em uma categoria que reúne rock dos anos 1980, axé, forrós e sertanejos contemporâneos.

    Quando vistas sob o prisma do léxico, as propostas de gêneros reúnem música gospel e reggae, ou seja, canções com "presença de letras repletas de espiritualidade".

    Brincadeiras à parte, a análise chega à retumbante conclusão de que a música brasileira estaria passando por um processo de simplificação, refletido na retração do vocabulário e na redução da quantidade de acordes utilizados desde os anos 1960.

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    Análise da música 2

    Sales levanta três possíveis fatores que explicariam esse movimento: a absorção do rock desde a Jovem Guarda, a popularização do hip-hop a partir dos anos 1980 e a guerra de audiência entre Faustão e Gugu nos anos 1990.

    Para ele, a "produção de músicas de prateleira" gerada pelos programas desses apresentadores "foi o golpe final na complexidade das composições nacionais" e seria "responsável por boa parte do que se escuta de sertanejo, forró universitário, axé e funk" atualmente.

    "Pense nisso: a mediana do quantitativo de acordes distintos entre 2011 e 2016 foi 6, apenas dois acordes a mais que 'Jingle Bell'", escreve.

    "É uma provocação, puro achismo", diz Sales sobre suas hipóteses. "A teoria que teria mais fundamento seria a da entrada do rock'n roll no Brasil quando o país estava saindo da bossa nova."

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    Análise da música 3

    COMPLEXO REVERSO

    Para estudiosos da música, a análise não passa de uma brincadeira curiosa.

    A pesquisa recebeu críticas por desconsiderar as variações dos acordes –um acorde de lá menor com sétima, cifrado como Am7, foi simplificado como lá maior, ou seja, apenas A–, diferentes tons e escalas, essenciais para a construção das harmonias.

    Além disso, a metodologia prioriza estilos que tradicionalmente adotam a notação pela cifra, especialmente os tocados com instrumentos populares como o violão. Gêneros como o funk e a música eletrônica, por exemplo, acabam não tendo a mesma visibilidade que a MPB ou o rock.

    "A menor complexidade harmônica relativa do jazz [exposta nos gráficos da pesquisa] é resultado disso. Se as fontes fossem partituras, a real complexidade desse estilo estaria representada", escreveu o leitor Marcelo no blog.

    A confiabilidade das fontes também foi questionada, já que as bases empregadas são alimentadas por usuários, e não pelos compositores.

    Sales diz ser "impossível fazer um trabalho genérico como esse, a não ser por essas fontes". "Não existe um repositório de dados de músicas brasileiras tão completo como os sites de cifra."

    Além da metodologia, a análise foi criticada por transpor resultados quantitativos a uma discussão qualitativa.

    "Será que toda composição musical precisa de uma grande quantidade e variedade de acordes para expressar seu conteúdo?", questiona Adelcio Camilo Machado, doutor em música pela Unicamp.

    "Fazendo uma comparação com a esfera pictórica, será que todo quadro precisa de uma imensa quantidade de cores para ter expressividade? Se assim fosse, o que se poderia dizer, por exemplo, de 'Guernica'? Será que os grupos de rap precisam de mais acordes para exprimir o sofrimento das periferias urbanas?", prossegue Machado.

    Machado chama atenção ainda para o fato de que o período analisado se inicia na década de 1950, época na qual, diz, o parâmetro dos acordes foi muito valorizado.

    "Se o pesquisador tivesse começado a investigação no início do século 20, é provável que ele verificasse um aumento do uso dos acordes entre as décadas de 1950 e 1960, seguido de uma retração desse parâmetro. Assim, a afirmação de que a música brasileira simplificou ao longo dos anos seria relativizada."

    Sales diz que o que entende por complexidade se refere aos indicadores que criou para a análise. "Tentei maximizar a possibilidade de quantificar alguma coisa, mas é claro que existem muitos outros aspectos que não foram considerados e por isso evitei falar em qualidade."

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