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    CRÍTICA

    Peça inspirada em 'Hamlet' faz crítica escancarada às elites

    MARIANA DELFINI
    COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

    06/10/2017 01h00

    Bruna Valência/Divulgação
    Grupo Magiluth de teatro em cena da peça "Dinamarca", inspirada em 'Hamlet
    Grupo Magiluth de teatro em cena da peça "Dinamarca", inspirada em 'Hamlet'

    DINAMARCA (muito bom)
    QUANDO sex. e sáb., às 21h30, e dom., às 18h30, até 15/10
    ONDE Sesc Belenzinho, rua Padre Adelino, 1000, tel. (11) 2076-9700
    QUANTO R$ 6 a R$ 20
    CLASSIFICAÇÃO 18 anos

    *

    Não é incomum no teatro brasileiro contemporâneo que o público receba dos atores um copinho de cachaça, uma xicrinha de café ou uns goles de vinho. É parte da "experiência"; em alguns casos, faz bastante sentido.

    Em "Dinamarca", a tacinha de espumante distribuída pelo grupo Magiluth é um convite ardiloso. Ao aceitar a bebida, assume-se a cumplicidade em uma festa perversa.

    A celebração está acontecendo no país que é o cenário de "Hamlet", inspiração para a peça, que é também um enclave alegórico que reúne a elite geopolítica –os países desenvolvidos "" e a social– a turma que está promovendo a balada.

    Esses anfitriões são retratados em cenas eufóricas e descosidas, de grande vigor físico e ironia escancarada, combinação acertada da direção de Pedro Wagner. Estão lá a disposição permanente para a festa alienada, o elogio a um estilo de vida quase obsceno, a juventude mimada e seus pais compreensivos. O público ri, irmanado com os atores.

    Estão lá também os abusos do pessoal "topzêra", em cenas que fazem a tacinha pesar na mão. Na nossa festa, uma menina pode acabar sendo violentada, uns moleques podem exagerar na brincadeira. Os convidados só observamos.

    A dramaturgia de Giordano Castro, que é também o destaque do elenco neste nono trabalho do grupo pernambucano, propõe algumas cenas simbólicas de grande força, como uma dança tribal masculina cheia de músculos e suor, uma síntese da agressividade da elite patriarcal.

    Também revê cenas do texto de Shakespeare, como a que inverte o sinal no confronto entre Hamlet e Gertrudes. Saem as acusações do príncipe melancólico, entra um esculacho da rainha no jovem mimado. O constrangimento reverbera na plateia, que devolve as taças em silêncio.

    Mas já é tarde. Nós que conhecemos Shakespeare e por isso entendemos referências ao clássico; nós que falamos outros idiomas e por isso acompanhamos a sinopse da peça, apresentada em inglês, somos convidados vip, comprometidos com a festa dinamarquesa.

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