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    CRÍTICA

    'A Oeste do Rio Jordão' reforça papel de radicais no conflito Israel-Palestina

    INÁCIO ARAÚJO
    CRÍTICO DA FOLHA

    23/10/2017 01h00

    Divulgação
    O cineasta Amos Gitai conversa com menino palestino em cena de 'A Oeste do Jordão
    O cineasta Amos Gitai conversa com menino palestino em cena de 'A Oeste do Jordão'

    A OESTE DO RIO JORDÃO (muito bom)
    DIREÇÃO Amos Gitai
    PRODUÇÃO Israel-França, 2017
    QUANDO 21/10, às 21h10 (Espaço Itaú - Frei Caneca); 23/10, no Cinearte (sala 1); 28/10, às 16h50, no Cinesesc; 30/10, às 15h50 (Espaço Itaú - Augusta)

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    Tanta coisa tem acontecido que por vezes esquecemos do conflito Israel-Palestina no Oriente Médio. Existe a Síria, os refugiados, o Exército Islâmico, Trump, Coreia do Norte. No entanto, eis do que nos lembra "A Oeste do Rio Jordão", o novo filme de Amos Gitai: o conflito está lá. Inteiro.

    Há dois Amos Gitai: em "Rabin, the Last Day" (2015), o jovem que em 1994 entrevista o primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin, e o senhor já idoso que, nos dias atuais, percorre Israel e Palestina em busca de produzir uma ideia do que seja o conflito entre os dois povos e as possibilidades de paz.

    Gitai é desde sempre um pacifista, sabe-se. O ponto central de suas ideias é que existe uma forte coalizão entre extremistas de um lado e outro para que a paz não aconteça, pois tiram vantagem da situação de conflito.

    Rabin, para quem não lembra, é o líder que iniciou um processo de paz com os palestinos antes de ser assassinado por um terrorista da extrema-direita israelense.

    Foi certa vez interpelado por um adversário da paz que o acusava de "fazer a paz com nossos inimigos". Respondeu: "Com quem mais eu poderia fazer a paz? Com nossos amigos?" Sabia ser inteligente com humor.

    A reflexão de Gitai, ao longo das viagens e entrevistas que faz, não mudou nesses pouco mais de 20 anos: existe uma coalizão entre os extremistas de ambos os lados para que a paz não aconteça. São os que tiram proveito da guerra.

    O ponto que torna Rabin tão importante em seu documentário: não é um homem que tenha sido desde sempre um pacifista, longe disso. É alguém que compreendeu, ao longo do tempo, a impossibilidade de viver numa situação bélica permanente.

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    O cineasta Amos Gitai durante o festival de Veneza de 2015
    O cineasta Amos Gitai durante o festival de Veneza de 2015

    Gitai vai aos territórios ocupados para saber o que pensam as pessoas, como vêem a ocupação dos territórios. Vai a diversas ONGs, uma de ex-soldados dispostos a levantar o véu sobre o que passaram na condição de ocupantes. Outra, de mulheres de um lado e de outro que perderam os filhos nos combates.

    A melhor entrevista é a de Amos com um menino palestino cujo sonho de vida é morrer como mártir. A pior, com uma ministra israelense que, simplesmente, nega-se a ouvir qualquer outro ponto de vista, nega-se até mesmo a ser perguntada. Por isso é a pior: trata-se de uma não entrevista.

    Uma das virtudes essenciais do filme será, sem dúvida, nos lembrar de que, embora tenha perdido seu lugar midiático, esse ainda é o pai de todos os conflitos. E está bem vivo.

    A outra é trazer a nós, novamente, as imagens de Gitai. Primeiro as de sua pessoa: hoje um senhor quase idoso, já não tão ágil como em 1994, ainda que dotado de convicção para continuar a usar o cinema como forma de abrir e expandir o diálogo entre os dois povos. Segundo, a imagem do cineasta nascido israelense hoje já um pouco fatigado desse conflito sem fim.

    Por fim, as imagens que produz: mostrando as paisagens ou numa simples entrevista basta bater os olhos na tela para sabermos que atrás da câmera (e às vezes diante dela) existe um talento invulgar.

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