• Ilustrada

    Sunday, 19-May-2024 09:06:37 -03

    crítica

    Obra é aperitivo digno sobre a gênese da 'Nona' de Beethoven

    IRINEU FRANCO PERPETUO
    COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

    27/11/2017 02h00

    Reprodução
    O compositor alemão Ludwig van Beethoven
    O compositor alemão Ludwig van Beethoven

    Para se familiarizar com uma grande obra, é preciso um grande livro? Não necessariamente.

    "A Nona Sinfonia: A Obra-Prima de Beethoven e o Mundo na Época de sua Criação", de Harvey Sachs, não realiza voos intelectuais ou estilísticos de envergadura e está muito longe de esgotar o assunto, mas funciona como introdução à partitura.

    Com 71 anos, o norte-americano Sachs é um experimentado escritor de livros de música, incluindo a coautoria das autobiografias do tenor Plácido Domingo e do regente Georg Solti. O volume sobre a "Nona" é de 2010.

    Embora seja ligado a um dos mais aclamados conservatórios dos EUA, o Curtis Institute, da Filadélfia, sua escrita busca ser acessível ao público não especializado, sem abusar de terminologia técnica, incluindo eventuais anedotas e se permitindo, até, tiradas antiacadêmicas.

    Das quatro partes do livro, a mais original é a segunda, na qual Sachs procura mapear o clima artístico de 1824, o ano da estreia da sinfonia.

    O foco são alguns dos principais escritores da Europa pós-napoleônica, como Lorde Byron e Púchkin, cujas criações não estão necessariamente relacionadas de forma direta à obra de Beethoven, mas ajudam a entender o ambiente intelectual e político em que foi gerada.

    Além de fornecer um apanhado didático da gênese da "Nona" e da biografia de seu criador, Sachs se propõe também a analisar a recepção e a influência da sinfonia.

    Um recorte se fazia necessário, mas o leitor termina a obra se perguntando se o adotado pelo autor -limitar-se a compositores nascidos antes da estreia da sinfonia, em 7 de maio de 1824- foi o mais satisfatório, já que deixa de lado os óbvios ecos da "Nona" na produção de músicos como Mahler e Bruckner.

    Ignora ainda um dos casos mais flagrantes de "angústia da influência" da história da música: Johannes Brahms (1833-1897), cuja primeira sinfonia foi alcunhada de "Décima de Beethoven".

    Mas o verdadeiro calcanhar de aquiles do livro reside na parte três, uma descrição da "Nona" que oscila entre o risco de soar hermética para o "leigo" e redundante para o especializado.

    Nesse aspecto, o capítulo dedicado à obra em "Beethoven: Angústia e Triunfo", de Jan Swafford, lançado neste ano no Brasil, é bem mais objetivo e satisfatório.

    A Nona Sinfonia
    Harvey Sachs
    l
    Comprar

    Ainda assim, quem não estiver a fim de encarar o catatau de mais de mil páginas de Swafford encontrará em Sachs, se não um substituto à altura, um aperitivo digno.

    A NONA SINFONIA: A OBRA-PRIMA DE BEETHOVEN E O MUNDO NA ÉPOCA DE SUA CRIAÇÃO
    AUTOR Harvey Sachs
    TRADUTOR Clóvis Marques
    EDITORA José Olympio
    QUANTO R$ 44, 90 (280 págs.)
    CLASSIFICAÇÃO bom ★★★

    Fale com a Redação - leitor@grupofolha.com.br

    Problemas no aplicativo? - novasplataformas@grupofolha.com.br

    Publicidade

    Folha de S.Paulo 2024