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    Ecstasy e LSD podem virar remédio contra distúrbios psíquicos em breve

    MARCELO LEITE
    ilustração THIAGO MARTINS DE MELO

    11/06/2017 02h06

    RESUMO Drogas que alteram a consciência voltam à bancada de cientistas em busca de terapias para distúrbios mentais. Ecstasy foi vedete de congresso nos EUA, pois se aproxima de última fase de testes contra estresse pós-traumático, mal que afeta veteranos de guerra e vítimas de violência urbana, entre outros.

    Thiago Martins de Melo

    Cerca de uma hora após as doses individuais de 120 miligramas de metilenodioximetanfetamina (MDMA), ou ecstasy, o grupo de dez pessoas deixa o hotel Courtyard Marriott. Uma camareira se espanta com a quantidade de gente que sai para o corredor e balança a cabeça.

    Passados seis dias de trabalhos, chegara o momento de comemorar o término do congresso Ciência Psicodélica 2017, que naquele final de abril reunira em Oakland, Califórnia, mais de 3.000 pessoas de 40 países. O tom era de euforia com a chance de reabilitar como remédios psicoativos algumas drogas de fama duvidosa, do LSD à psilocibina.

    Guiado pelos pesquisadores Alberto, Timóteo, Ricardo e Aldo (nomes inventados), chego à rua convicto de que não me achava sob influência de uma substância controlada.

    Falo mais que o de costume, mas me dou conta disso e acho normal. Na esquina do hotel, um lounge improvisado serve de fumódromo para adeptos de maconha (cujo consumo é legal na Califórnia).

    Enquanto discorro sobre afetos e netos para quase estranhos, nos quais, estranhamente, confio, consigo observar meu próprio comportamento e analisá-lo. Rio da preocupação emergente com o fato de minhas pernas parecerem incorpóreas, ao mesmo tempo em que percebo de modo intenso o impacto das passadas nas calçadas largas de Oakland.

    A camaradagem é notável. Em segundos, forma-se o consenso de que o clube noturno buscado, com seus seguranças corpulentos e uma fila comprida à porta, é o último dos lugares em que a turma de brasileiros se sentirá bem. Após poucas deserções, batemos em retirada para o quarto acolhedor do hotel.

    Dias e semanas depois, ainda respirava o ar renovado e puro que a MDMA espalhara à minha volta. Mais de uma pessoa afligida por trauma, depressão ou vício já descreveu o efeito terapêutico de drogas psicodélicas como um botão de reset: limpa-se o hardware –o cérebro– dos resquícios que impedem de enxergar com clareza o núcleo das aflições.

    Com a experiência, fica mais fácil entender por que a MDMA tem virado a cabeça de veteranos de guerra, policiais e bombeiros dos EUA. O ecstasy está prestes a enfrentar testes clínicos de fase 3 –barreira regulatória final da agência de fármacos americana (FDA)– para tornar-se tratamento reconhecido contra estresse pós-traumático.

    Uma vez abertas as portas para a respeitabilidade, poderão passar também compostos psicodélicos problemáticos, por seus efeitos alucinogênicos e pelos efeitos colaterais físicos e mentais (como desencadear surtos psicóticos). Em vista estão novas terapias contra depressão, dependência química e outros sofrimentos resistentes ao atual arsenal farmacológico –e pesquisadores brasileiros podem ter papel de destaque na reabilitação dessas substâncias.

    SEROTONINA

    Embora não engendre viagens como o LSD, o ecstasy se classifica como droga psicodélica porque atua sobre os receptores serotoninérgicos 5HT2A e 5HT2C, aumentando os níveis do neurotransmissor serotonina. O humor melhora, e diminuem ansiedade e depressão, com mudança na percepção do significado de experiências e sentimentos.

    Thiago Martins de Melo

    Como sempre na sinfonia bioquímica cerebral, é mais complicado que isso. A metilenodioximetanfetamina também modula outros neurotransmissores e substâncias reguladoras, como dopamina, norepinefrina, noradrenalina, oxitocina, prolactina e cortisol. O efeito concertado costuma ser redução do medo e aumento de empatia, confiança e intimidade (para não mencionar o risco de hipertermia, ou superaquecimento, que já vitimou vários frequentadores de "raves" que não se hidrataram ).

    "A MDMA é a droga do bonobo", define Sidarta Ribeiro, do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Um dos brasileiros presentes ao congresso em Oakland, ele compara os efeitos do ecstasy com a suavidade dessa variedade menor de chimpanzés (Pan paniscus), propensa ao sexo e a carinhos. Estimulantes como a cocaína, em seu paralelo, seriam as drogas do chimpanzé comum (Pan troglodytes), agressivo e encrenqueiro.

    Assim como outros psicodélicos, a MDMA relaxa os controles da rede neural em modo padrão (DMN, "default mode network", em inglês). Essa interação de regiões cerebrais como o córtex cingulado posterior, o córtex pré-frontal medial, o giro angular e o hipocampo, entre outras, entra em ação de forma automática quando a pessoa não está prestando atenção no mundo exterior.

    Acredita-se que essa rede seja a base do "self". Ela se mostra mais ativa nos momentos de introspecção e quando se pensa noutras pessoas, no próprio passado ou no futuro. É uma forma de integração, de busca ativa de sentido, e por isso atua também quando prestamos atenção num livro, num filme ou numa história que nos contam.

    Seu mau funcionamento está associado a patologias como alzheimer, autismo, esquizofrenia, depressão e estresse pós-traumático.

    A experiência psicodélica propicia um afrouxamento dessa rede que permite a interconexão mais fluida entre outras áreas cerebrais, com consequente redução da consciência autorreferencial –algo descrito na literatura como "dissolução do ego".

    O efeito curativo da dissolução do ego decorreria do surgimento de sensações boas, do rebaixamento das defesas e da disposição para encarar fatos e lembranças dolorosas. Aumenta a possibilidade de que o paciente se abra com o psicoterapeuta.

    Num dos momentos mais tocantes do congresso, o presidente da Maps (Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos, em inglês), Rick Doblin, projetou vídeo com um veterano de duas incursões no Iraque. Como encarregado da metralhadora no alto de um veículo Humvee, ele se envolvera em vários combates.

    Após tomar a dose de MDMA na presença de um casal de terapeutas e se deitar com uma venda nos olhos e fones de ouvido tocando música tranquila, ele se põe a narrar a sensação de paz propiciada pelo ecstasy. "Eu encarei aquilo de que fui capaz no Iraque", disse. "Eu sei que isso faz parte da droga, mas vou tentar me agarrar a esse sentimento."

    PATCHOULI

    Na primeira fileira do auditório, uma senhora de saia comprida listada, bata de flores e cabelos vermelhos enxuga uma lágrima ao ouvir o testemunho do combatente. É provável que ela tenha marchado contra a Guerra do Vietnã, nos anos 1960.

    Seria precipitação concluir de sua aparência e do cheiro predominante de patchouli que o congresso em Oakland não passou de uma assembleia de hippies velhos. A ciência ocupou o proscênio, e não deixa de ser paradoxal que tantos ali a encarem hoje como último porto para ancorar uma filosofia de vida cujo núcleo é a busca de uma expansão da consciência que beira o misticismo.

    Thiago Martins de Melo

    Mas a ciência não escamoteia o fato de que várias dessas drogas podem causar alucinações apavorantes e sintomas pronunciados, como a náusea e o vômito típicos da "peia" que a ayahuasca aplica em seus usuários.

    O salão Marketplace era o local com mais exemplares dessa fauna mesmerizada pelas cores do arco-íris e por J.R.R. Tolkien, gente capaz de sair em público com tiaras de unicórnio e gorros pontudos de gnomos. As bancas de produtos e serviços esotéricos ou psicodélicos se sucedem: Botanical Dimensions (dimensões botânicas), Awake Net (rede desperta), Essential Oil Wizardry (magia do óleo essencial)...

    O mais notável ponto de contato entre Estados Unidos e Europa é Amanda Feilding, condessa britânica que criou em 1998 a Beckley Foundation, para fomentar pesquisas sobre consciência, tratamento de doenças mentais e aumento da criatividade. Desde 2005, seu diretor de pesquisa é David Nutt, do Centro de Neuropsicofarmacologia do Imperial College, de Londres.

    Ao lado de Rick Doblin, da Maps, Feilding está por trás da incipiente renascença dos estudos psicodélicos. Além de levantar fundos e fazer campanha pela reforma de políticas proibicionistas, ela figura como coautora em diversos trabalhos publicados em periódicos científicos. No congresso em Oakland, havia sempre um cortejo a seu redor.

    A biografia da condessa inclui episódio sobre o qual ela não se pronuncia muito em público. Em 1970, quando tinha 27 anos, ela realizou uma autotrepanação, perfurando o próprio crânio com uma broca de dentista. O pretexto era dar mais espaço para o cérebro pulsar livremente. Feilding registrou a performance no curta-metragem "Heartbeat in the Brain" (batimento cardíaco no cérebro), cujas cenas é possível encontrar na internet.

    A viagem da ciência psicodélica se encontra hoje noutro patamar. No terceiro congresso da Maps (os anteriores aconteceram em 2010 e 2013), não se ouvia a palavra "trepanação" nas sessões oficiais. O tema mais presente era "PTSD", abreviação em inglês para transtorno de estresse pós-traumático, o passaporte dos psicodélicos norte-americanos para admissão nos domínios da pesquisa apresentável.

    ÚLTIMA FASE

    O líder inconteste é Rick Doblin. Após anos de estudos-piloto e lobby sobre a FDA, seu grupo está perto de obter autorização para testes clínicos de fase 3 com MDMA para tratamento do distúrbio de ansiedade que acomete veteranos de guerra, vítimas de violência urbana, policiais e bombeiros. Os transtornados, ao recordar o evento traumático, revivem também a agonia do episódio violento e sofrem ataques de pânico.

    Thiago Martins de Melo

    Nos EUA, 2,1 milhões de veteranos receberam tratamento entre 2006 e 2010. As compensações financeiras para eles consomem ao todo US$ 17 bilhões anuais. "Um ônus enorme", afirmou Doblin na abertura do congresso.

    Em maio, a equipe de Doblin teve nova reunião na FDA sobre os planos da fase 3. Superados os últimos obstáculos, a Maps não prevê dificuldades para aprovar a proposta final do protocolo que submeterá ainda em junho.

    A fim de aumentar as chances de licenciar o tratamento psicodélico em 2021, o plano é alistar ao menos 200 pacientes no estudo clínico. Para isso, a Maps precisa levantar US$ 20,5 milhões (cerca de R$ 67 milhões) –sua campanha já obteve metade disso.

    Nos 12 testes de fase 2 iniciados em 2001 pela Maps, participaram 107 pessoas cujo transtorno não melhorava com terapias convencionais. Um terço recebeu MDMA duas ou três vezes, em sessões terapêuticas de oito horas separadas por intervalos de três a cinco semanas, e o restante frequentou psicoterapia tradicional. As evidências obtidas de que o ecstasy é seguro e eficaz para tratar PTSD foram suficientes para a agência de fármacos permitir a preparação da fase 3.

    O planejamento envolve treinar 120 terapeutas para acompanhar pacientes nas sessões em clínicas. O processo inclui curso online de 14 horas, seminário e ao menos duas semanas de prática para fazer o acompanhamento dos pacientes nas sessões, uma vez que os proponentes da MDMA defendem sua utilização terapêutica unicamente em ambientes controlados, como clínicas e hospitais.

    Os psiquiatras adeptos das novas drogas também veem na sua eventual aprovação a oportunidade de abrir um mercado. "Um dia, haverá mais postos de trabalho em clínicas psicodélicas do que no [setor de] carvão", disse Doblin, aludindo aos 131 mil empregos que o presidente Donald Trump alega salvar ao renegar o Acordo de Paris.

    SUICÍDIOS

    Paul Stamets, autor de vários livros sobre uso medicinal de cogumelos, iniciou sua apresentação "A Micologia da Consciência" pedindo que levantasse a mão quem já tinha ingerido fungos produtores de psilocibina, outra substância psicodélica cujo efeito terapêutico é investigado. Só não o fizeram 7 dos cerca de 300 presentes, uma demonstração de que o contato com drogas psicoativas era norma no congresso.

    Não se ouvia ali, porém, ninguém dizendo que os compostos sejam inofensivos. Não faltaram recomendações para que jamais sejam ministrados a pacientes com traços psicóticos. A própria associação de estudos psicodélicos mantém um programa para promover viagens seguras, o projeto Zendo de redução de danos.

    O estigma de drogas perigosas representa um dos maiores obstáculos para que entrem no "mainstream" da psiquiatria substâncias como LSD e MDMA, que durante décadas não estiveram proibidas.

    A MDMA foi sintetizada e patenteada em 1912 pela farmacêutica Merck. Realizaram-se apenas estudos com animais até a década de 1950 e não se encontraram na época aplicações medicinais.

    Na década de 1980, redescoberta como auxiliar para psicoterapia, fez furor nas casas noturnas com o nome de ecstasy, chamando a atenção da DEA (agência antidrogas dos EUA), que a criminalizou em 1985.

    O LSD foi descoberto em 1938 por Albert Hofmann (1906-2008), na farmacêutica Sandoz. Guardou o status de curiosidade até ser adotado pelo movimento contracultural nos anos 1960.

    Vem dos hippies a tradição de celebrar em 19 de abril o Dia da Bicicleta, para reverenciar a primeira viagem de LSD documentada, pelo próprio Hofmann, em 1943, que teve visões fantásticas enquanto pedalava do laboratório para casa.

    Hofmann lançaria em 1979 o livro "LSD, My Problem Child" (LSD, meu filho problemático). Mas não foi o nome dele que ficou associado com o ácido lisérgico, e sim o de Timothy Leary (1920-1996).

    O inquieto e brilhante psicólogo doutorado pela Universidade da Califórnia em Berkeley carregava uma história pessoal conturbada quando foi contratado, em 1960, pela Universidade Harvard.

    Ainda em Berkeley, Leary ficara famoso pelas festas libertinas e alcoólicas que ele e a mulher, Marianne, promoviam. No dia em que fez 35 anos, segundo conta Don Lattin em "The Harvard Psychedelic Club" (HarperOne; o clube psicodélico de Harvard), Leary acordou e viu um bilhete sobre o travesseiro de Marianne.

    A jovem andava deprimida com o fato de o marido ter uma amante. Embora o casamento fosse aberto, Leary teria rompido o acordo de não se ligarem a eventuais parceiros extraconjugais.

    Alarmado, Leary saltou da cama. Ouviu o barulho do motor do carro e correu, encontrando a mulher já desmaiada no banco da frente e a porta da garagem fechada. Marianne morreria horas depois no hospital.

    Assistiram a tudo os dois filhos, Jack e Susan. A filha também se suicidaria, 35 anos depois, na cadeia em que aguardava julgamento por tentativa de homicídio.

    PSICOLOGIA

    No verão do ano em que aportou em Harvard, Leary teve sua primeira experiência psicodélica ao ingerir cogumelos alucinógenos em Cuernavaca, México. Voltou aos EUA convencido de que drogas como o LSD iriam revolucionar a psicologia, ao abrir as "Portas da Percepção" (título de um influente livro em que Aldous Huxley narra experiências com mescalina).

    Num de seus experimentos iconoclastas, em 1961, Leary ministrou o ácido lisérgico a presidiários de uma cidade vizinha, Concord. Um ano depois, daria psilocibina a estudantes de teologia.

    Andrew Weil, aluno que teve acesso negado ao círculo íntimo de Leary e Richard Alpert (que mais tarde mudaria o nome para Ram Dass), escreveu um artigo de denúncia contra a dupla no jornal do campus, "Harvard Crimson". Acabaram expulsos da universidade e se tornaram celebridades para uma geração de jovens em busca de revelações mediadas por drogas.

    Nos anos seguintes, Leary converteu-se num apóstolo do LSD e de similares, o que lhe garantiu até uns dias de cadeia.

    Em 1966, a DEA incluiu o ácido lisérgico na lista de substâncias perigosas, pelo alto potencial de abuso e por efeitos adversos graves, como reações agudas de pânico e crises psicóticas. Vários Estados americanos proibiram fabricação, posse e consumo, legislação que logo se espalhou pelo mundo.

    Além de LSD, MDMA e psilocibina, o congresso em Oakland abordou outros compostos testados em contexto terapêutico, como ibogaína, salvinorina e canabinoides.

    O contraponto mais forte à vedete MDMA, contudo, partiu de um preparado em que pesquisadores brasileiros não encontram concorrentes: a ayahuasca. Também chamada de daime, a beberagem feita com um cipó (Banisteriopsis caapi) e outras plantas, como a chacrona (Psychotria viridis), está no centro de rituais em religiões como Santo Daime e União do Vegetal.

    As três dezenas de pesquisadores do Brasil presentes ao Ciência Psicodélica 2017 cerraram fileiras em torno de duas figuras: a antropóloga Beatriz (Bia) Caiuby Labate, do Centro de Pesquisas e Estudos Pós-Graduados em Antropologia Social, de Guadalajara, México, e o físico Dráulio Barros de Araújo, do Instituto do Cérebro da UFRN.

    PLANTAS

    Labate, que tem 17 livros em sua bibliografia concentrada na ayahuasca, integrou a equipe organizadora do congresso, para o qual montou a vertente sobre medicina de plantas.

    Ao discursar na abertura do evento, ela defendeu que a Maps se torne mais multidisciplinar e inclusiva, abrindo espaço para considerações de antropólogos sobre conhecimentos tradicionais que legaram à ciência compostos como a combinação de DMT (dimetiltriptamina) e harmina presente no daime e a mescalina de cactos como o peyote mexicano.

    "Nem tudo diz respeito a moléculas", discursou Labate. "As plantas têm importância." Recebeu muitos aplausos quando pediu mais voz para os povos indígenas.

    O físico da UFRN também pode ser descrito como uma pessoa inquieta, mas de estirpe muito diversa da de Timothy Leary. É com calma zen que o ex-paraquedista, instrutor de mergulho, iogue e surfista expõe os dados de um estudo sobre o uso de ayahuasca para tratar depressão. Calcula-se que 350 milhões de pessoas no mundo sofram desse mal, um terço delas sem obter resultado com medicamentos antidepressivos.

    O grupo da UFRN recrutou 218 pacientes com depressão resistente a tratamento, dos quais 35 foram selecionados para o teste com ayahuasca (outros ficaram de fora por causa de problemas como esquizofrenia na família). A bebida foi dada a 17 deles, em dose única, e os outros 18 receberam um chá amargo para fazer as vezes de placebo.

    Ao longo de uma semana, os participantes foram avaliados com base em escalas consagradas para depressão. Constatou-se que os escores eram muito menores no grupo da ayahuasca, em comparação com o do placebo.

    Participou do experimento um pescador com histórico de 20 anos de depressão. Dois dias depois, contou que tinha sonhado com Iemanjá e estava surfando.

    "Doutor, esse chazinho do índio é uma maravilha. Sabe aonde eu vou agora? Para a praia. Estou com vontade de andar de bicicleta de novo."

    CEP ERRADO

    Dráulio de Araújo se formou em física na UnB, mas embrenhou-se pelo campo da neurociência e cursou pós-graduação na USP de Ribeirão Preto, onde se tornaria professor. Lá, em 2005, fez sua primeira incursão no Santo Daime: não chegou a ver as "mirações" e teve muito mal-estar, mas não o bastante para descartar o potencial do preparado.

    "Você não vai beber ayahuasca para ir a uma festa", resume o neurocientista, que se afastou da beberagem por sete anos. "Mas ela é segura quando usada apropriadamente [numa sessão terapêutica assistida por profissionais]."

    Para o pesquisador, a ayahuasca permite que a pessoa veja, literalmente, como os pensamentos se formam. "Não é uma substância de prazer, é de trabalho."

    O estudo sobre depressão está disponível só no repositório aberto bioRxiv (bit.ly/2s6QscK), por toda a dificuldade de publicação. Primeiro, o grupo da UFRN o submeteu à revista "Lancet Psychiatry", quando recebeu três pareceres favoráveis de revisores técnicos. Ainda assim, o texto foi rejeitado em um único dia pelo editor.

    Em 2016, contudo, foi aceito um estudo sobre psilocibina de David Nutt (parceiro da condessa na Beckley Foundation) com menos da metade de pacientes e sem controle de placebo.

    Para Labate, o problema está no CEP –um estudo em Natal (RN) tende a ser visto com desconfiança por europeus e americanos. Mas há também o fator ayahuasca, um preparado que mescla vários componentes de duas plantas e não se reduz a uma pílula tão facilmente quanto a MDMA.

    "Não vejo modo de a ayahuasca virar mainstream", constata Dráulio de Araújo. "Como receitar? São muitos tabus juntos."

    MARCELO LEITE, 59, é repórter especial da Folha.

    THIAGO MARTINS DE MELO, 35, artista plástico, expõe no museu Astrup Fearnley, em Oslo, até 30/8.

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