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    Universidades deveriam se abrir aos quadrinhos, diz autor de tese pioneira

    RAMON VITRAL

    06/08/2017 02h00

    RESUMO Nick Sousanis foi o primeiro aluno da Universidade Columbia a concluir tese de doutorado em formato de quadrinhos. A obra, premiada, chega ao Brasil com o título 'Desaplanar'. Ele analisa o processo de aprendizagem, questiona a primazia da palavra escrita na linguagem e defende a simbiose texto-imagem.

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    Nick Sousanis tinha 13 anos quando criou o super-herói Homem-Armário, dotado do poder de, ao passar por uma porta, sair em qualquer tempo ou lugar. A princípio, o dom só funcionava em armários; talvez não pareça grande coisa, mas era conveniente para um pré-adolescente vivendo a rotina dos corredores de uma escola americana. Mais tarde, a habilidade do paladino se desenvolveu, e logo ele passou a usá-la em qualquer porta.

    Hoje com 44 anos, Sousanis é um quadrinista e pesquisador laureado. Em 2014, tornou-se o primeiro pós-graduando a apresentar à prestigiosa Universidade Columbia uma tese de doutorado em formato de história em quadrinhos.

    Atuando na área da educação, deu a seu estudo heterodoxo um título pouco convencional: "Unflattening: A Visual-Verbal Inquiry into Learning in Many Dimensions" (unflattening: uma investigação verbo-visual sobre o aprendizado em várias dimensões).

    No ano seguinte, sua tese foi publicada pela editora da Universidade Harvard e ganhou, na categoria de humanas, o prêmio mais tradicional para pesquisas e trabalhos acadêmicos nos Estados Unidos (o American Publishers Awards for Professional and Scholarly Excellence). Nunca uma HQ havia recebido essa distinção, e ainda nenhuma voltou a merecê-la.

    Agora seu livro chega ao Brasil sob o nome "Desaplanar" [trad. Érico Assis, Veneta, 208 págs., R$ 84,90], com lançamento previsto para este mês. Assim como não se encontra "unflattening" nos dicionários da língua inglesa, "desaplanar" é um neologismo em português. De acordo com o autor, seja como for traduzido o título original, ele deve preservar o sentido de algo ativo e em movimento, inacabado e inacabável.

    "Eu realmente não quis definir 'unflattening', pelo menos não com mais palavras. Em todo o meu trabalho, pelo uso de metáforas, tento criar coisas que possam ser lidas de formas diferentes dependendo de quem estiver lendo", afirma Sousanis em entrevista à Folha, por e-mail.

    "Isso também constitui o argumento do livro –certas coisas vão além do que palavras conseguem expressar e até podem soar irracionais, mas, parafraseando a filósofa Susanne Langer, elas apenas não cabem na estrutura da linguagem."

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    Reprodução da pág. 51 de "Desaplanar"
    acima, reprodução da pág. 51 de "Desaplanar"

    Valorizando a multiplicidade de perspectivas típica dos quadrinhos , o autor analisa as formas pelas quais os seres humanos adquirem conhecimento, reflete sobre a separação entre a expressão verbal e a visual e questiona a primazia da palavra escrita na construção do pensamento.

    ORIGENS

    Os experimentos da pré-adolescência não foram em vão. Em "Desaplanar", ao tratar da simbiose entre texto e imagem como modo ideal para o aprendizado, Sousanis retorna ao Homem-Armário e aprofunda a discussão sobre a habilidade de atravessar portas.

    Em uma sequência de desenhos ligados ao super-herói, escreve: "É isto aqui, o espaço intermediário que conecta dois lugares de modo não usual. Isto que é a imaginação. Uma ruptura na trama da experiência, uma dobra no espaço".

    O autor em seguida explica que o paladino surgiu de seu fascínio por chaves e fechaduras e pelas histórias que seu irmão contava a respeito do que havia no guarda-louça e no sótão, cuja porta se mantinha sempre fechada. Destacando que países das maravilhas costumam ser acessados por portais comuns, como buracos de coelhos e espelhos, conclui: "Seja qual for o meio de transporte –a imaginação oferece outro ponto de vista a partir do qual iniciar nova jornada".

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    Reprodução da pág. 62 de "Desaplanar"
    Reprodução da pág. 62 de "Desaplanar"

    Convidado da 4ª edição das Jornadas Internacionais de Histórias em Quadrinhos da USP (de 22 a 25 de agosto), Sousanis é filho de um professor de física e de uma professora de estudos ambientais que sempre se mostraram abertos à leitura de quadrinhos dentro de casa. Por influência de seu irmão mais velho, a primeira palavra que pronunciou foi Batman. "Algo que quase intencionalmente repliquei com minha filha", acrescenta.

    A formação profissional do hoje quadrinista e professor do Departamento de Humanidades e Estudos Liberais da Universidade Estadual de San Francisco é, assim como "Desaplanar", heterodoxa e fortemente marcada por uma diversidade de pontos de vista.

    Graduou-se em matemática na Universidade Western Michigan, mas dedicou os anos seguintes ao tênis, primeiro como atleta profissional, depois como instrutor. Em 2002, ele e seu irmão John fundaram o site TheDetroiter.com, com a proposta de cobrir a cena artística de Detroit. Após vender a plataforma, em 2008 ele se mudou para Nova York já em busca de seu doutorado em educação no Programa de Estudos Interdisciplinares da Universidade Columbia.

    "Minha ideia inicial era produzir um quadrinho como tese sobre algum tópico educacional, possivelmente física, por causa do meu pai", conta Sousanis.

    Sua proposta, porém, soou mais radical do que ele imaginava. Ao contrário do que presumira, o debate sobre a presença de HQs na academia não estava superado. "Então meu projeto se transformou num estudo sobre o próprio projeto", afirma.

    "Comecei a pensar na forma como a página estática e plana ['flat', em inglês] de um quadrinho poderia conter mais informações do que parecia possível –a meu ver, mais do que um texto conseguiria", diz. "De alguma forma, a página estava 'desaplanando' ['unflattening', em inglês] para mim. O termo ficou na minha cabeça."

    Estimulado por alguns professores –interessados em métodos de ensino não convencionais e em novos sistemas de avaliação–, Sousanis seguiu em frente. "A ideia de 'Desaplanar' acabou se tornando muito mais política, por eu estar buscando reverter preconceitos contra o uso de elementos visuais como ferramenta para estimular o pensamento", diz.

    TESE

    Sua missão passou a ser não só difundir os quadrinhos como um formato legítimo para o discurso acadêmico mas também atacar o predomínio da escrita e sugerir outras possibilidades, num verdadeiro exercício de metalinguagem.

    "O termo 'desaplanar' ganhou uma multiplicidade de significados relacionados a educação, interdisciplinaridade e interação imagem-texto, bem como significados ligados ao ponto de partida: quadrinhos são legais."

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    Reprodução da pág. 67 de "Desaplanar"
    Reprodução da pág. 67 de "Desaplanar"

    As conquistas de "Desaplanar" como tese de doutorado não impediram a obra de obter sucesso fora dos muros da academia. A HQ também ganhou o Lynd Ward Prize de melhor graphic novel de 2015, entregue pela Universidade Estadual da Pensilvânia, e foi uma das indicadas ao Eisner Awards, o prêmio máximo da indústria de quadrinhos dos EUA, na categoria melhor pesquisa/trabalho acadêmico.

    Entre os méritos de Sousanis no reino dos quadrinhos estão não repetir nenhuma vez o design das suas páginas e intercalar desenhos realistas com formas geométricas simples, no intuito de reforçar a necessidade de olhar para o mundo de novas maneiras.

    Mais uma vez, foi um trabalho heterodoxo. Sousanis não dispunha de um roteiro predefinido, por exemplo. "Sempre me perguntam: 'você escreveu primeiro as palavras ou começou pelos desenhos?' E eu respondo: 'sim'."

    Ele explica: "Se eu tivesse escrito um roteiro antes para só depois ilustrá-lo, teria sido um projeto diferente, teria tomado direções muito diferentes. Muito do livro chegou a essa forma por eu ver coisas nos meus cadernos de esboços que despertavam uma ideia e suscitavam outras pesquisas. Nunca tentei 'fazer caber' um desenho em algo que eu tivesse escrito".

    Sousanis enxerga o processo como um círculo, sem um ponto de partida, e seu resultado, como uma propriedade emergente (noção que denota aquilo que surge a partir da interação entre diversos componentes, sem estar presente em nenhum tomado individualmente).

    "Os esboços são repletos de palavras, e palavras são um gatilho para desenhos, assim como desenhos sugerem palavras que os acompanhem", afirma.

    A ausência de um personagem fixo e de uma história permeando "Desaplanar" levou Sousanis a pensar cada uma das páginas de forma quase autônoma. "E essa solução só vem a partir dos desenhos e da minha imersão, de tentar coisas diferentes e confiar que isso vai me conduzir a algum lugar interessante", diz. Movido pela fé nos rumos próprios do projeto, retornou aos livros constantemente para pesquisar algo novo a partir do estímulo de suas ilustrações.

    REFERÊNCIAS

    Embora a obra desperte interesse entre não iniciados no mundo acadêmico, o livro é essencialmente uma tese de doutorado e, por isso, vem repleto de citações literárias e filosóficas.

    Do grego Platão (427-347 a.C.), por exemplo, menciona a desconfiança quanto à natureza ilusória da percepção humana. Há ainda citações do francês René Descartes (1596-1650), considerado o fundador da filosofia moderna, do racionalista holandês Baruch Spinoza (1632-77), do sociólogo alemão Herbert Marcuse (1898-1979) e do escritor italiano Italo Calvino (1923-85), entre outros.

    A maior referência de Sousanis, todavia, é uma obra de ficção científica: "Planolândia - Um Romance de Muitas Dimensões", do britânico Edwin A. Abbott (1838-1926). Publicado originalmente em 1884, o livro é ambientado no mundo bidimensional de Planolândia e funciona como uma crítica à sociedade vitoriana da época, com homens representados como polígonos de vários lados, e mulheres, como linhas.

    O trabalho do inglês serve como espécie de justificativa para "Desaplanar". Ele escreve: "Tal é a situação dos planolandeses, encurralados pelas fronteiras do que enxergam, incapazes de imaginar outra possibilidade. Romper estes padrões de raízes tão fundas exige um empurrão, uma ruptura na experiência que ilumine as fronteiras e os meios de transcendê-las".

    O livro de Sousanis, no mundo real da academia, foi esse empurrão. Passada a resistência inicial, seu trabalho teve ótima recepção. Ainda nas fases iniciais, seu projeto ganhou destaque em The Chronicle of Higher Education, principal site voltado para o universo do ensino superior dos EUA.

    Na avaliação do autor, boa parte da repercussão decorre de uma demanda por novos formatos de pesquisa e pelo aumento do interesse em quadrinhos. "Tive sorte de fazer esse trabalho enquanto essas duas forças estavam em movimento, o que resultou em várias oportunidades de compartilhar meu estudo em outras universidades e conferências antes mesmo de concluir a tese e publicá-la", diz.

    Sua expectativa é a de que o trabalho abra portas para outros pesquisadores. "Importava menos o fato de eu ser o primeiro a fazer isso do que o de não ser o último", afirma. "Se você está estudando e tem uma ideia que não se parece com nada que veio antes, você passa a ter mais alguma coisa para apontar e dizer que há um precedente. Já vi isso acontecer e estou confiante que mais mudanças virão."

    O autor, naturalmente, não sugere que todos passem a fazer pesquisas acadêmicas no formato das HQs. Ele defende o uso de formatos e linguagens não convencionais, desde que sejam compreensíveis aos leitores. "[O ideal é que] a qualidade do trabalho e o domínio de seu argumento e sua forma sejam o mais importante."

    Para Sousanis, porém, os quadrinhos possuem vantagens em relação a outros modos de expressão. Ele explora a ideia –difundida principalmente pelo quadrinista norte-americano Chris Ware– de que a linguagem das HQs corresponde, mais do que outras, "ao jeito como percebemos as coisas em nossas mentes".

    Ware, autor de obras-primas como "Jimmy Corrigan - O Menino Mais Esperto do Mundo" e "Building Stories", sustenta ideia semelhante, dizendo que o potencial dos quadrinhos para capturar o fluxo e o refluxo da consciência humana foi pouco explorado.

    VANTAGENS

    Outras referências são Scott McCloud, quadrinista americano, e Thierry Groensteen, franco-belga que teoriza sobre HQs. O primeiro destaca o aspecto sequencial dos quadrinhos, e o segundo, a natureza interconectada de uma página.

    "Costumo falar de todas essas coisas (bem como da interação palavra-desenho) como ativos dos quadrinhos. Jeitos de dizer algo nos quadrinhos que não poderia ser dito de outra forma", diz Sousanis.

    De acordo com ele, essa é a característica mais empolgante dos quadrinhos: "A capacidade de reunir num único formato os aspectos sequenciais e simultâneos da consciência. Isso é o que eu enfatizo nas minhas aulas e palestras."

    Sousanis desenvolve o tema: "Testemunhamos o tempo passar de forma sequencial –os ponteiros do relógio avançam, mudamos de uma atividade para outra, e assim por diante. Mas, ao mesmo tempo, os pensamentos estão sempre à deriva, acontecendo todos de uma vez. Os quadrinhos não só nos permitem respirar tanto no mundo das imagens quanto no dos textos como nos possibilitam ter experiências de simultaneidade e sequencialidade, o que lhes dá enorme poder diante de narrativas complexas ou para explorar ideias a fundo".

    O quadrinista, entretanto, diz se considerar conservador em relação a experimentações com HQs. "Gosto de fazer coisas que possa segurar nas mãos, passar as páginas e ler como eu fazia quando tinha cinco anos. Acho que ainda tenho tanto a aprender sobre fazer quadrinhos que posso esperar um pouco para testar os limites dos formatos tradicionais."

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    Quase três anos após o lançamento de "Desaplanar" nos EUA, Sousanis trabalha numa espécie de continuação do livro. Ainda sem título definido, o volume será um guia complementar ao trabalho de doutorado e também sairá pela editora da Universidade Harvard. "Se tenho dificuldade para falar de um livro que terminei há três anos, é ainda mais difícil falar sobre um que ainda estou desenvolvendo", brinca o autor.

    "Se 'Desaplanar' argumentou a favor da sua própria existência, esse próximo vai tratar do aspecto mais prático das coisas", diz.

    Enquanto o doutorado teve entre suas inspirações um empenho em pensar como o mundo e o ensino poderiam ser para sua filha, agora ele é influenciado pelo que aprende com a criança e com os alunos que assistem a suas aulas na universidade. "Quero ajudar as pessoas a reaprender a importância de fazer perguntas e a saber que são capazes de atos criativos", afirma.

    RAMON VITRAL, 31, é jornalista especializado em histórias em quadrinhos e editor do blog Vitralizado.

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