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    Para economista, Argentina enfrenta crise de modo pouco pragmático

    FELIPE GUTIERREZ
    DE BUENOS AIRES

    29/07/2014 20h39

    A situação da dívida argentina chegou a um limite, em parte, por causa da maneira que o governo escolheu para enfrentar a questão, antagonizando com os fundos e com o juiz Thomas Griesa. Quem afirma é o economista Lucas Llach, professor da Universidade Torcuato di Tella.

    Llach diz considerar que uma suspensão da sentença que obriga Buenos Aires a pagar o NML no futuro não significa que irá haver acerto. O NML é o fundo de investimento que lidera o grupo de credores que não reestruturou a dívida.

    Veja abaixo a entrevista dele.

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    Folha - Qual o argumento a favor de não acertar nada com o NML?
    Lucas Llach - Creio que a Argentina não foi suficientemente inteligente para apresentar ao juiz suas propostas. Se as opções são pagar mais aos que ficaram de fora da reestruturação com o risco da cláusula que garante aos que ficaram dentro as mesmas condições, me parece que é melhor não fazer esse pagamento.

    Mas daí detentores de títulos reestruturados podem pedir a aceleração.
    A Argentina já estaria em calote. E é óbvio que o país não iria pagar uma aceleração. Seria uma mancha a mais. E os credores sabem disso. Isso significaria um novo processo, com um país que já mostrou que pretende cumprir sua dívida com quem fechou acordos. O tema da aceleração me parece pouco relevante. O importante é encontrar uma maneira pela qual o governo consiga pagar aos credores reestruturados. Se não nas datas de vencimento, pelo menos o montante.

    O governo tem dito que já pagou.
    Acho que o governo, digo sem ser um especialista, afirmar que depositou o dinheiro e que o problema do juiz não me parece a maneira mais amigável de dar esse calote. A Argentina, junto com os credores da troca, deve procurar pagar esses bônus e ser um devedor de boa fé.

    Qual seria o melhor dos cenários?
    Um cenário possível é uma suspensão da sentença. Correria a bola para seis meses para a frente. Mas não me parece tão claro que, chegado esse momento, o governo teria disposição de pagar demais aos credores que ficaram de fora da troca. Qualquer governo iria pagar de alguma maneira e o problema teria sido página virada. Mas esse elegeu um caminho pouco pragmático e mais ideológico.

    A maneira como a Argentina se coloca, por exemplo, insistindo em chamar os fundos de abutres, influencia no processo?
    Sim. O juiz Thomas Griesa mesmo disse que algumas decisões judiciais foram influenciadas pelo antagonismo que o governo escolheu.

    Qual seria o impacto de um não cumprimento na economia do dia a dia?
    Depende muito do que o governo irá fazer. A filosofia é servir a todos os títulos da troca da melhor forma e como mais convenha aos credores. E não brigar com o juiz e ficar apontando a culpa e o dedo.

    Neste ano a economia argentina deve ter recessão e a inflação está na casa dos 30%. A crise da dívida vai piorar esse cenário ainda mais?
    A economia já não tinha dólares de financiamento externo. Os dólares das exportações são usados para pagar a dívida. O que define o nível de atividade do país é o quanto se pode importar. O principal problema desse evento financeiro seria impedir uma melhora de sua atividade porque vão faltar dólares. Agora, acredito que o sistema fundamental é o sistema cambial fixo administrável. Por mais que se acerte com o Clube de Paris, o controle de câmbio continua sendo uma questão. E o governo não parece disposto a mudar. Em outras palavras: não vai piorar muito porque já está mal demais. Mas não acho que será um recessão muito profunda.

    E para um futuro mais distante, um segundo calote em 13 anos é uma mancha no histórico?
    Os mercados financeiros olham para o futuro. No ano de 2005, o país reestruturou a dívida e, em 2006, o risco país atingiu uma baixa histórica. Era inferior ao do Brasil. Depois a Argentina ainda manipulou seus índices de preços que determinavam os pagamentos, ou seja, não foi um devedor de boa fé.

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